Coluna O princípio é o verbo apresenta: Pra Quem Ainda Vier a me Amar, um texto de Roberto Freire

30/08/11

Pra Quem Ainda Vier a me Amar
Roberto Freire


Quero dizer que te amo só de amor. Sem idéias, palavras, pensamentos. 
Quero fazer que te amo só de amor. Com sentimentos, sentidos, emoções.  
Quero curtir que te amo só de amor. Olho no olho, cara a cara, corpo a corpo.  

Quero querer que te amo só de amor. São sombras as palavras no papel.  
Claro-escuros projetados pelo amor, dos delírios e dos mistérios do prazer.  
Apenas sombras as palavras no papel. 

Ser-não-ser refratados pelo amor no sexo e nos sonhos dos amantes. 
Fátuas sombras as palavras no papel. 
Meu amor te escrevo feito um poema de carne, sangue, nervos e sêmen. 

São versos que pulsam, gemem e fecundam. Meu poema se encanta feito o amor 
dos bichos livres às urgências dos cios e que jogam, brincam, cantam  
e dançam fazendo o amor como faço o poema. 

Quero a vida as claras superfícies onde terminam e começam meus amores.  
Eu te sinto na pele, não no coração. Quero do amor as tenras superfícies  
onde a vida é lírica porque telúrica, onde sou épico porque ébrio e lúbrico.  

Quero genitais todas as nossas superfícies. 
Não há limites para o prazer, meu grande amor,  mas virá sempre antes, 
não depois da excitação. 

Meu grande amor, o infinito é um recomeço. 
Não há limites para se viver um grande amor. 
Mas só te amo porque me dás o gozo e não gozo mais porque eu te amo.  

Não há limites para o fim de um grande amor. 
Nossa nudez, juntos, não se completa nunca, mesmo quando se tornam 
quentes e congestionadas, úmidas e latejantes todas as mucosas.  

A nudez a dois não acontece nunca, porque nos vestimos um com o corpo do outro,  
para inventar deuses na solidão do nós. Por isso a nudez, no amor, não satisfaz nunca. 

Porque eu te amo, tu não precisas de mim. Porque tu me amas, eu não preciso de ti. 
No amor, jamais nos deixamos de completar. 
Somos, um para o outro, deliciosamente desnecessários.
O amor é tanto, não quanto. Amar é enquanto, portanto. Ponto. 

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Coluna Tem que escutar, escutando apresenta: Um safari pelo samba

04/07/11

samba safari

 

Quando paramos pra pensar no desenvolvimento do homem antigo pelas diferentes regiões do planeta, algumas similaridades nos permitem traçar um fio condutor e uniformizar o espírito humano, alcançando o significado do termo Essência. Expressão sincera, fluida e nestes casos, compartilhada por todo um grupo, a música é talvez o campo que mais demonstre estas semelhanças entre espíritos de épocas e regiões completamente diferentes.

Tal qual a descoberta da roda, que surgiu para preencher uma necessidade humana, a utilização de tambores (feitos com troncos de árvores e mais tarde peles de animais) é prática presente em diversos povos desde os tempos mais remotos. Estritamente relacionadas com as celebrações e rituais religiosos, as batucadas serviam também como meio de comunicação em muitos grupos, tanto para com receptores distantes, quanto como um meio de discurso dentro da própria comunidade.

Mais antiga ainda que o surgimento dos tambores é a percepção da voz como instrumento e do movimento corporal como conexão espiritual e musical, aquilo que chamamos de canto e de dança. Junte tudo isso e perceberemos a semelhança que há nos rituais de povos de contextos totalmente diferentes e sem nenhuma comunicação entre eles, desde tribos africanas a povos nativos sul-americanos (erroneamente chamados de indígenas).

Para quem não se interessa pela história, não é preciso ir tão longe. Uma breve pesquisa demonstrará às mentes abertas que quase todos os estilos musicais populares hoje em dia, derivam destas mesmas batucadas citadas anteriormente. Em especial, uma destas formas de se tocar ilustra muito bem este processo de ancestralidade musical. Parafraseando o poeta Jorge Ben, dou uma dica sobre sua identidade: “Filha de nobres africanos, que por um descuido geográfico, nasceu no Brasil num dia de Carnaval”.

Se você ainda não sabe de quem estou falando, deixarei que o próprio som manifeste-se através das palavras de Zé Kéti: “Eu sou o samba”! Sinônimo de festa, cultura, sentimento e arte, o samba nunca teve dificuldade nenhuma em ser a voz do povo: ele é desde sempre uma genuína forma de expressão da alma humana. Seja em suas raízes tribais africanas, seja nos versos tão sofridos de Nelson Cavaquinho, seja ainda no batuque vindo do Fundo de Quintal. O samba é sinônimo de Brasil!

A fim de abrir uma porta de entrada para que você, leitor e ouvinte, mergulhe de cabeça nas raízes deste som, assim como na própria alma destes sambistas (e por que não em sua própria alma?), o Samba Safari traz mais uma mixtape produzida pelo professor Luciano Alves, com mais de uma hora de viagem pelos diversos tipos e sabores de samba. Com as bênçãos de todos os santos e orixás, candombless!

 

Clique no player abaixo para escutar a mixtape Samba Safari – Um safari pelo samba (por Luciano Alves)


Caso não consiga ouvir, escute por aqui!

 

Para baixar a mixtape e escutar em casa, clique aqui!

 

01 – Orquestra Afro Brasileira – Apresentação De Paulo Roberto
02 – Almirante & Pixinguinha c. Grupo da Velha Guarda – Pelo Telefone
03 – Zé Keti – A Voz Do Morro
03 – Adoniran Barbosa – Saudosa Maloca
04 – Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim & Conj. Época de Ouro – Barracão
05 – Clementina de Jesus – Na linha do mar
06 – Nei Lopes – Cara E Coroa
07 – Martinho da Vila – Batuque Na Cozinha
08 – Beth Carvalho – Coisinha Do Pai
09 – Adoniran Barbosa & Esterzinha de Souza – Letra de Samba
10 – Johnny Alf – Rapaz de Bem
11 – Sílvia Telles com Barney Kessel – Manhã de Carnaval
12 – Elis Regina – Upa neguinho
13 – Jacob do Bandolim & Zimbo Trio – Chega de Saudade
14 – Nara Leão – Tic-Tac do Meu Coração
15 – Luciano Perrone (Batucada Fantástica Vol. 3) – Samba Quente
16 – Martinho da Vila – Canta, Canta Minha Gente
17 – Beth Carvalho – Agoniza Mas Não Morre
18 – Cartola – Preciso me Encontrar
19 – Candeia – História de Pescador
20 – A Fantástica Bateria – Tratado de Ritmo 1
21 – Luiz Carlos Da Vila – Canta Candeia – De Qualquer Maneira
22 – Moacyr Luz E Aldir Blanc (Velha Guarda Mangueira) – Cachaça, Árvore E Bandeira
23 – Cartola – O mundo é um moinho
24 – Clara nunes – Marinheiro Só
25 – Martinho da Vila – Casa de Bamba
26 – A Fantastica Bateria – Tratado de Ritmo II
27 – João Nogueira – Boteco Do Arlindo
28 – Partido em 5 Samba Som 7 – Festa de Rato e Trambiqueiro
29 – Jorge Veiga – Na Cadência Do Samba
30 – Chico buarque – Fica
31 – Tom Zé – Tô
32 – João Bosco – O Bêbado E a Equilibrista
33 – Luciano Perrone (batucada fantástica vol 3) – Cuíca, Pandeiro, Agogô, Atabaques e Surdos
34 – A Fantástica Bateria – Tratado de Ritmo 2
35 – Bezerra da Silva – Pagode na casa do Gago
36 – Aparecida – Tereza Aragão
37 – Fundo de Quintal – O show tem que continuar
38 – Zeca Pagodinho – Spc
39 – Beth Carvalho – Lenço
40 – Fundo de Quintal – A Batucada Dos Nossos Tantãs
41 – Bezerra da Silva – Malandragem, Dá Um Tempo
42 – Grupo Raça – Dona da Minha Sina

 


Coluna O princípio é o verbo apresenta: Falando com ela – Capítulo 2

21/06/11

 

Saudade não sei se é a palavra certa para usar. Você nunca está distante de quem está no seu pensamento todos os dias. Vontade ainda parece pouco, é coisa que dá e passa, não traduz este desejo urgente de estar perto. Você sente que precisa resolver, que precisa conversar com alguém. É só desabafo, você já está decidido sobre qual resposta quer ouvir.

Você diz que nunca sentiu nada parecido com o que está sentindo agora… e é verdade. Não existe uma pessoa igual à outra, assim como não existe um amor igual ao outro. Pouco do que você aprendeu em outras experiências servirá agora; saber o que deve fazer é muito diferente de fazê-lo. Ninguém pode entender o que você está sentindo. Ninguém, exceto você.

Você percebe que aquela avenida faz você lembrar dela. Você ouve aquela música, e pensa nela. Mesmo as coisas que lhe acontecem, esperam o momento de serem contadas para ela. O que aconteceu com o mundo? Como eram todas as coisas antes de você conhecê-la? O que aconteceu com a sua vida? Em que momento você a dividiu em duas partes e entregou metade a ela?

Que importância têm estas perguntas quando você lembra daquele sorriso? Que decisão resiste a tantas lembranças boas? Qualquer final pra você fora só um mal entendido, ainda resta esperança. Não importa o quanto você diga que não. Não importa o quanto você prometa que não quer mais falar no assunto.

Você ainda a ama. Mesmo que o tempo passe, mesmo que você vire passado. Mesmo que ela esteja com outra pessoa. Mesmo que você esteja com outra pessoa. Bastaria apenas uma ligação no meio da noite pra você sair correndo para ajudá-la com o carro. Bastaria apenas um beijo para que você esquecesse quantas noites desejou que aquele sofrimento tivesse fim.

E o amor é isso. Você tenta conter, mas ele é mais forte do que qualquer motivo. Você finge não ligar, mas ele se mostra em cada frase, em cada gesto. Você tenta ser apenas um amigo, mas não consegue controlar a vontade de fazer carinho em seu rosto, arrumar seus cabelos e lhe dar um beijo que diga o quanto você gosta dela. Você tenta pensar em outras coisas, mas todo texto soa como uma declaração de amor.

 

Dedicado à todas as “pequenas” do mundo.

 

 

 


Coluna O princípio é o verbo apresenta: Jair Bolsonaro, o grande psicanalista

09/04/11

Carl Jung, um dos maiores desbravadores da mente humana, dizia que um conflito só pode ser solucionado quando sua origem é retirada da sombra e trazida para a luz da consciência, a fim de ser analisada e resolvida. Em suas análises, Freud descobriu que na maioria das vezes, a causa de manifestações neuróticas de todos os tipos estava no inconsciente, e cabia à psicanálise trazê-la à tona. É possível encontrar este tipo de pensamento até em registros muito mais antigos, como nos textos bíblicos, que diziam que o perdão só seria possível após o entendimento e confissão de seus pecados a deus.

Embora a solução seja conhecida, existem muitas defesas que impedem a consciência humana de enxergar a verdade escondida. Negações, auto-engano, transferências, e todos os tipos de rota de fuga, servem, por um lado, para evitar a dor de um confrontamento com a realidade, mas acabam por afastar o indivíduo da solução de seus problemas. Dentre as defesas, a mais perigosa é a transferência, que consiste em enxergar a causa e o próprio problema nas outras pessoas, e recriminá-las por isso, trocando o sentimento de culpa pela condenação ao próximo.

Um caso muito comum deste tipo de transferência acontece quando, diante de um caso de corrupção política, um cidadão mostra-se indignado, mesmo sendo adepto de pequenas corrupções do dia a dia, como não devolver um troco que veio a mais, comprar a aprovação em uma prova para carteira de motorista, ultrapassar uma fila de carros pelo acostamento, entre outros diversos exemplos. É muito mais fácil acusar o próximo, escondendo-se em uma aura de perfeição, do que assumir os próprios atos, as próprias opiniões, analisá-las e tentar, talvez, reciclar uma ou outra em prol de uma evolução como indivíduo.

No Brasil, uma prática muito comum, entre todas as classes sociais, é a de disfarçar certas opiniões polêmicas, defendendo-se com acusações quando necessário. “Brasileiros têm olhos de lince para desvios de conduta ao redor, mas são cegos ao olhar para si. Todos se sentem superiores. Há a idéia de que brasileiro é o outro. Se fizer uma pesquisa, mais de 90% vão dizer que não têm preconceito racial. Se perguntar se há preconceito racial no país, mais de 90% dirão que sim. As duas coisas não podem ser verdade ao mesmo tempo”, questiona o filósofo Eduardo Giannetti, em entrevista à Revista Trip do mês de março.

Nestas últimas semanas, uma certa figura ganhou notoriedade ao emitir opiniões polêmicas em rede nacional. Trata-se do militar e deputado federal, Jair Bolsonaro, alguém conhecido por declarar abertamente ser favorável ao regime militar, à tortura, à pena de morte e ao fim das reservas indígenas. Com declarações emblemáticas sobre o homossexualismo, a ditadura, o uso de drogas e o relacionamento entre seu filho e “uma negra”, o qual definiu como promiscuidade, Bolsonaro figurou entre as manchetes de todos os veículos.

As declarações do deputado e a repercussão do fato serviram nas últimas semanas para despertar o debate sobre os temas citados em bares, faculdades e redes sociais. Enquanto grande parte da população mostrou-se indignada, houve gente que preferiu não se manifestar e houve, inclusive, muita gente que demonstrou compartilhar das opiniões de Bolsonaro. Apesar das diferentes reações ao fato, é sabido que a maioria da população concorda em algum ponto com o deputado.

É possível ouvir opiniões assim em todos os tipos de ciclos sociais, de pessoas com pouco ou muito acesso à informação. A discriminação ao pobre, ao negro, ao homossexual, ao deficiente físico, é uma constante assustadora entre os jovens e adultos brasileiros, sendo esta postura mais ou menos disfarçada, de acordo com o grau de convivência ao qual o indivíduo preconceituoso é obrigado a conviver com os indivíduos que discrimina. Inclusive, acredito que seja este grau de convivência um dos principais motivos para que essas opiniões mantenham-se veladas no Brasil, e dificilmente organizadas em movimentos ou passeatas conservadoras, como acontece frequentemente em alguns países europeus.

Discutem-se então medidas legais para criminalizar a discriminação. Fachada. A lei impede apenas que as opiniões discriminatórias sejam expressas, não combate um cenário que é estreitamente ligado com a discriminação. Enquanto isso, o negro, o pobre, o homossexual, o deficiente físico, são subjetivamente ou objetivamente discriminados pela cultura que já está cristalizada junto ao povo brasileiro. E o principal aliado desta discriminação velada é justamente o fato de não poder ser discutida e questionada, uma vez que não é assumida. Como diz a letra dos Racionais, “o primo do cunhado do meu genro é mestiço, racismo não existe, comigo não tem isso”.

Em meio a estas defesas que impedem que o problema seja discutido e resolvido, torna-se interessante a figura de um Jair Bolsonaro, alguém que revela o que grande parte do povo realmente pensa. Embora humanamente desprezível, é necessário que grande parte da população assuma sua postura preconceituosa e discriminatória, para que só assim seja possível mergulhar na sombra coletiva da sociedade e encontrar a solução para este problema. Para quem se identifica, é hora de tirar as máscaras e revelar seu lado. Saúdo, portanto, o grande psicanalista Jair Bolsonaro.

 

 


Coluna O princípio é o verbo apresenta: O medo, de acordo com Dom Juan

05/04/11

Quando eu estava me preparando para partir, tornei a lhe perguntar acerca dos inimigos do homem de conhecimento. Argumentei que ia passar algum tempo sem voltar, e que seria uma boa idéia escrever as coisas que ele tivesse a dizer e pensar a respeito enquanto estivesse fora. Hesitou um pouco, mas depois começou a falar:
- Quando um homem começa a, aprender, ele nunca sabe muito claramente quais seus objetivos. Seu propósito é falho; sua intenção, vaga. Espera recompensas que nunca se materializarão, pois não conhece nada das dificuldades da aprendizagem.

Devagar, ele começa a aprender… a princípio, pouco a pouco, e depois em porções grandes. E logo seus pensamentos entram em choque. O que aprende nunca é o que ele imaginava, de modo que começa a ter medo. Aprender nunca é o que se espera. Cada passo da aprendizagem é uma nova tarefa, e o medo que o homem sente começa a crescer impiedosamente, sem ceder. Seu propósito torna-se um campo de batalha.

E assim ele se deparou com o primeiro de seus inimigos naturais: o Medo! Um inimigo terrível, traiçoeiro, e difícil de vencer. Permanece oculto em todas as voltas do caminho, rondando, à espreita. E se o homem, apavorado com sua presença, foge, seu inimigo terá posto um fim à sua busca.

- O que acontece com o homem se ele fugir com medo?

- Nada lhe acontece, a não ser que nunca aprenderá. Nunca se tornará um homem de conhecimento. Talvez se torne um tirano, ou um pobre homem apavorado e inofensivo; de qualquer forma, será um homem vencido. Seu primeiro inimigo terá posto um fim a seus desejos.

- E o que pode ele fazer para vencer o medo?

- A resposta é muito simples. Não deve fugir. Deve desafiar o medo, e, a despeito dele, deve dar o passo seguinte na aprendizagem, e o seguinte, e o seguinte. Deve ter medo, plenamente, e no entanto não deve parar. É esta a regra! E o momento chegará em que seu primeiro inimigo recua. O homem começa a se sentir seguro de si. Seu propósito torna-se forte. Aprender não é mais uma tarefa aterradora. Quando chega esse momento feliz, o homem pode dizer sem hesitar que derrotou seu primeiro inimigo natural.

- Isso acontece de uma vez, Dom Juan, ou aos poucos?

- Acontece aos poucos e no entanto o medo é vencido da repente e depressa.

- Mas o homem não terá medo outra vez, se lhe acontecer alguma coisa nova?

- Não. Uma vez que o homem venceu o medo, fica livre dele o resto da vida, porque, em vez do medo, ele adquiriu a clareza… uma clareza de espírito que apaga o medo. Então o homem já conhece seus desejos; sabe como satisfazê-los.

 

*O trecho acima pertence ao livro A Erva do Diabo, de Carlos Castaneda, escrito em 1968. No livro, o antropólogo Castaneda relata suas experiências com um velho índio mexicano, um brujo chamado Don Juan. Durante o período em que ficou sob os ensinamentos de Don Juan, Castaneda experimentou e descreveu suas experiências com o peyote, também conhecido como “a erva do diabo”. Os relatos de Castaneda transformaram-se em um bestseller, influenciando diversas gerações, como os hippies, para a abertura mental e espiritual. Confira abaixo a primeira parte de um documentário produzido pela BBC sobre a vida deste controverso escritor e antropólogo. Para assistir as outras partes, clique aqui.




Coluna O princípio é o verbo apresenta: Falando com Ela

27/03/11

(…)

E enquanto ouvia Caetano cantando aqueles versos em “Fale com ela”, de Almodóvar, perguntava-se: “é a arte uma reprodução da vida, ou a vida, ela própria, inspira-se nas possibilidades imaginadas pela arte?”. Era difícil acreditar nas semelhanças entre a canção de Tomáz Méndez e o próprio desenrolar de sua história. Enxergava-se no homem da canção, que mergulhado na tristeza de um amor que se foi, encontrava refúgio no canto de uma pomba que visitava sua janela durante as noites. Ambos acreditavam que era o pássaro a própria encarnação do sentimento. Em espanhol, Paloma.

Todos os dias, o canto de Paloma o reconfortava. Queria segurá-la; queria assegurar-se que toda noite ela estaria lá para trazer paz ao seu coração. Ponderava, entretanto. Como bom observador da natureza, sabia que pássaros tinham seu próprio jeito de viver. Sabia que a liberdade era a principal inspiração para que cantassem e dançassem pelo céu. Em seus assovios, ele ouvia Paloma chamá-lo de vida. Não soubesse talvez que ela própria era o sopro que fazia o coração daquele homem bater.

 

 



Coluna O princípio é o verbo apresenta: A fina flor da malandragem, um texto de Sérgio Vaz

25/03/11

A fina flor da malandragem
Sérgio Vaz

Duzão é piloto, e o que dá fuga a essa malandragem. Na madrugada, a bordo de um Mercedes, dirige certo por vias tortas.
Aninha já passou o ferro em várias madames, dizem por aí que pra mais de vinte.
Cabeção tem olhar de rapina e um iceberg no coração, quando entra no banco já vai direto no caixa.
Colorau não age na quebrada, gosta de fazer mansão.
Lu ganha a vida distribuindo suas ideias através de um pó branco comprimido, a molecada fica alucinada. Nada contra quem mexe, mas ela nunca meteu a mão no pó dos outros.

Vavá não pode ver carro parado que leva, se não der na chave leva nas costas.
Lourival mete o cano desde criança, o pai se virava no alicate, e nunca teve medo de cerca elétrica.
Como teve problemas de berço, Mariana pega o filho dos outros e devolve por uma quantia mínima.

Julião põe medo em muita gente, também pudera, já enterrou vários com uma pá na mão.
Salete limpou a casa de Sonia, quem deu a fita foi a Rose, que se bobear limpa até as casas dos parentes.

Marcio resgatou Sales da cadeia, e saiu do presídio pela porta da frente, ninguém fez nada.
Elizabeth quase não ri, é uma espécie de gerente da boca, na rua dizem que ela é a patroa.

Nego Jan vende tudo que pega: relógio, TV, DVD, Eletrodomésticos em geral, carro, moto, corrente de ouro, roupa de marca, e demais mercadorias. Sua lábia é mais afiada que lâmina de gigolô.
Zóio tem problemas com a injustiça e está no semiaberto, passa o dia na oficina e a noite dorme no 3º andar. Quando pode, Guida e preto Will, parceiros de caminhada, o visitam no domingo.
Luciana não tem medo de sangue, já ajudou a cortar vários desconhecidos, muitos cagam de medo de morrer na mão dela.

Wilsinho não tem medo de nada, já passou o revólver até no carro da polícia.
As pessoas acima são suspeitas de ter a coragem de trabalhar, e enfrentar o dia a dia com a dignidade que só o sofrimento ensina, e por mais simples que sejam, nunca se evadiram da responsabilidade de lutar.

A malandragem fica por conta dos olhos de quem lê.

 

Segunda Classe (Tarsila do Amaral)

 

 

*Texto extraído da Revista Caros Amigos de março de 2011. Sérgio Vaz é poeta e fundador da Cooperifa. @poetasergiovaz / poetavaz@ig.com.br



Tom Zé – Todos os olhos (1973)

23/03/11

 

Costuma-se chamar de gênio um indivíduo que consegue enxergar o mundo à sua volta por um prisma diferente dos demais, alguém que é capaz de entender certos mistérios da vida antes do que a maioria dos homens de seu tempo. Diz-se também, que esta vivência separada dos paradigmas de seu meio atenua a linha que separa a genialidade da loucura, duas faces humanas incompreendidas por nossa cultura. Se existe um homem na música brasileira que ilustra as afirmações anteriores, este atende pelo nome de Tom Zé.

Música não, rebeldia, como ele próprio afirma em entrevista à Caros Amigos de fevereiro deste ano. “Eu acho que eu não faço música. Música é só o pretexto, eu faço rebeldia. Rebeldia. Aquela proteína que entre os 13 e os 50 anos se a geração não tiver rebeldia, ela entra em falência. Primeiro, ela tem que compreender seu tempo e depois negar o seu tempo e cometer a rebeldia mesmo, dela, que ninguém controla”.

Incompreendido por uma geração que ainda não estava pronta para o abandono dos moldes tradicionais, Tom Zé é um pilar esquecido do Tropicalismo. Sua evolução não foi acompanhada pelo público e, embora tenha participado dos grandes festivais no começo de sua carreira, o lançamento do disco “Todos os Olhos”, de 1973, marca a ruptura do mercado com o artista. Algo curioso para uma época cultural tida como questionadora e revolucionária. Ouso imaginar que mesmo dentro do alternativismo tropicalista, era preciso ser esteticamente rentável.

Após anos de ostracismo em sua carreira, esquecido por seus antigos companheiros Caetano e Gil, Tom Zé estava “enterrado vivo”, como ele mesmo diz. Foi durante uma visita de David Byrne, dos Talking Heads, ao Brasil dos anos oitenta, que Tom Zé seria resgatado. “Graças a um arrumador de loja desastrado que colocou meu disco, Estudando o Samba, junto com os outros pagodes”, afirma. Diante daquela obra tão rica e atual (mesmo sendo de 1976), Byrne se apressou em lançar Tom Zé na Europa e Estados Unidos, popularizando o artista brasileiro mundo afora.

Como bom povo provinciano, acostumado desde suas origens a macaquear o comportamento de seus colonizadores, foi necessária a aprovação de um estrangeiro para que se reconhecesse, após décadas, o valor do genial Tom Zé em sua própria terra. Ainda assim, em terra brasilis, o baiano de Irará tem entre o grande público nada mais do que o conhecimento de seu nome. Como tantos outros gênios da história, muito se fala a seu respeito, enquanto pouco se escuta da sua mensagem.

 

O disco

Embora existam diferentes versões para a história da capa de “Todos os olhos”, fazer uma alusão subliminar ao olho menos ortodoxo da anatomia humana, em uma capa de disco lançada nos anos de chumbo da ditadura, já é algo provocador o bastante para escandalizar até as gerações mais modernas. Musicalmente, Tom Zé funde neste disco todas as suas dissonâncias com o néctar do samba, com os refrões memorizáveis e sua poesia que dialoga com o íntimo do ouvinte, que chega a sentir proximidade do poeta.

Entretanto, antes que se corra o risco de pensar que sua obra pertence aos domínios da complexidade intelectualóide, Tom Zé avisa: “Todo compositor brasileiro é um complexado / Por que então essa mania danada / esta preocupação de falar tão sério, / de parecer tão sério, / de ser tão sério, / de sorrir tão sério, / de chorar tão sério, / de brincar tão sério, / de amar tão sério? / Ai, meu deus do céu vai ser sério assim no inferno”.

Uma vez que algo é simples, não significa que não seja sofisticado. Como bom antropófago, Tom Zé revive a melancolia da cantora Dolores Duran com “A noite do meu bem”, em uma versão onde os vazios entre as notas flertam com o vazio que existe dentro do próprio ouvinte. Na sequência, em uma parceria com um dos criadores da Poesia Concreta, Augusto de Campos, Tom Zé brinca com as palavras e os sentidos em “Cademar”.

Humano, demasiado humano, como a famosa obra de Nietzsche, é o pensamento que dá luz à quarta música do disco, a experimental “Todos os olhos”. É preciso acordar do impulso que nos transforma em deuses, que nos cria a necessidade de heroísmo, força absoluta e conhecimento sobre todas as coisas. Como Tom Zé, somos inocentes, somos até fracos e não sabemos de nada. Somos apenas humanos, demasiado humanos.

Assim como no disco anterior, “Se o caso é chorar” de 1972, Tom Zé é acompanhado no disco “Todos os Olhos” pela banda Capote, o psicodélico grupo do cantor Odair Cabeça de Poeta. Ao melhor estilo “Baiano e os Novos Caetanos”, trio humorístico formado nos anos 70 por Chico Anysio, Arnaud Rodrigues e Renato Piau, a canção “Dodó e Zezé” é uma conversa entre os matutos Tom Zé (Zezé) e Odair Cabeça de Poeta (Dodó).

Em “Quando eu era sem ninguém”, Tom Zé canta o clima de Irará, uma terra, segundo ele, pré-gutemberguiana, onde todas as tradições eram passadas oralmente. Embora a esta época já fosse um “velho baiano” no cenário musical brasileiro, a canção familiariza-se bastante com as canções de Pepeu, Moraes, Galvão, Baby e Paulinho, os Novos Baianos. Na sequência, em “Brigitte Bardot”, Tom Zé percebe que nem ícones como Brigitte Bardot, musa dos sonhos de toda uma geração, são poupados pelo tempo.

Embora a grande vencedora do Festival de Música Popular Brasileira de 1968, “São São Paulo, meu amor”, seja considerada o hino da cidade por compreendê-la com olhos paulistas (do baiano Tom Zé), nenhuma de suas canções soa mais paulistana do que o samba “Augusta, Angélica e Consolação”. “Augusta, graças a deus / entre você e a Angélica / eu encontrei a Consolação / que veio olhar por mim / e me deu a mão”, canta o poeta,  “adonirando” a cidade . “Quando eu vi, / que o Largo dos Aflitos / não era bastante largo / pra caber minha aflição, / eu fui morar na Estação da Luz / porque estava tudo escuro / dentro do meu coração”.

Considerada pelo próprio Tom Zé como a idéia mais fantástica que já teve, sua teoria sobre lixo lógico é o fio condutor de “Botaram tanta fumaça”. Em entrevista à Caros Amigos, ele explica: “A gente chegava na escola, o professor explicava aristotelicamente, a gente comparava com a educação da gente e quando chegava aqui dizia ‘É, dá certo, mas sobra aqui… Joga pra lá, porque a escola é que ta certa’. O ginásio joga uma porrada de coisa, o colégio joga uma porrada, a universidade joga tudo aqui. Aí um belo dia isso foi ficando tão pesado, feito um aleijado, que a pessoa tem mais coisa no hipotálamo que no córtex”.

Presente também no disco de 1970, “O Riso e a Faca” é coisa das mais bonitas, uma valsa intimista que escuta Tom Zé declamar sua poesia. E então, quando você pensa que está começando a entender, “Um Oh e um Ah” chega para lhe mostrar que o incompreensível é nada mais do que aquilo que não pode ser resumido, aprisionado e classificado. Logo após, há ainda uma segunda versão de “Complexo de Épico” fechando as cortinas e encerrando o disco.

Abaixo, como complemento essencial indico “Fabricando Tom Zé”, do diretor Decio Matos Junior, onde Tom Zé é acompanhado pela equipe do documentário em sua turnê do ano de 2005. Misturando causos do passado com o cotidiano do músico e poeta, o documentário acrescenta entrevistas com Gil e Caetano, entre outros, para situar o espectador.

Espero que gostem!

 

 

Download: Tom Zé – Todos os olhos (1973)

 

 


Coluna Tem que escutar, escutando apresenta: Manifesto Samba Safari

16/03/11

Explicar qual é a proposta do Samba Safari é algo que envolve muito mais metafísica do que pode parecer. Nascido e crescido como um envolvimento musical que unia amigos, ouvintes dos mais variados estilos, o Samba Safari pode ser considerado um estado de espírito. Nestas duas palavras, aparentemente despretenciosas, se agrupam todos os sonhos e projetos culturais de uma geração de amigos que cresceu com a certeza de que a cultura é o maior fator de transformação na vida de um indivíduo.

Ao mesmo tempo em que é produto, expressão individual e coletiva, o Samba Safari é também receptor, acolhendo todas as idéias e manifestações culturais que participem desta mesma atmosfera, sendo um denominador comum pluralista. Da vida, queremos viver a arte, queremos discutir o mundo, queremos andar entre amigos. Samba Safari é cantar em coro o refrão deste grande samba que é viver.

Inauguro a coluna “Tem que escutar, escutando”, batizada deste modo em homenagem ao alquimista Jorge Ben, com uma playlist produzida pelo meu camarada Luciano Alves, que faz um safári pelo samba, pela música brasileira, e mistura todas as suas vertentes no mesmo plano. Como em qualquer escola que se preza, a aula a seguir levará 50 minutos para expor nossa visão do mundo.

Samba Safari!

 

 

Alguns sons:

Ivan Lins – Tanauê
Marcos Valle – Batucada
Milton Banana – Não faz assim
Dom Salvador Trio – Barumba
Skowa e a Máfia – Deus Me Faça Funk
Azimuth – Manhã
João Donato – Malandro
Bebeto – Veja a vida como ela é
Luciano Perrone – Afoxé
Chico Buarque – Fica
Candeia – Olha o samba sinhá
Milton Nascimento – Nada será como antes
Arthur Verocai – Na boca do sol
Tim Maia – Bom senso
Banda Black Rio -  Chega Mais (Imaginei Você Dançando)
Banda Erotica – Flash
Miguel de Deus – Black Soul Brothers


Caetano Veloso – Transa (1972)

02/03/11

 

No dia 27 de dezembro de 1968, os maiores expoentes da música brasileira, Caetano Veloso e Gilberto Gil, foram presos pelo regime militar sem qualquer alegação plausível. Obviamente suas participações em passeatas, movimentos estudantis e principalmente, suas condutas revolucionárias, não eram vistas com bons olhos pelo governo. Os dois passaram por celas de diversos quartéis no Rio de Janeiro, onde tiveram suas vidas marcadas para sempre pelo cárcere.

Durante este período, foram compostas em cela algumas canções que ficariam muito conhecidas, como “Irene”, onde Caetano canta a saudade da alegria e de sua irmã (Eu quero ir, minha gente / Eu não sou daqui / Eu não tenho nada / Quero ver Irene rir / Quero ver Irene dar sua risada), e Cérebro Eletrônico, uma das mais geniais canções de Gil.

Após dois meses de confinamento, numa quarta-feira de cinzas, os dois baianos foram conduzidos a Salvador, onde passariam outros quatro meses em regime de prisão domiciliar. Na metade do ano de 1969, o governo militar, com os poderes que o Ato Institucional número 5 lhe conferiam, decidiu expulsar Caetano e Gil do país. Fora permitido, embora, que realizassem um último show para arrecadar dinheiro para sua viagem forçada.

Nos dias 20 e 21 de julho, os dois principais tropicalistas faziam seu último show em terras brasileiras antes do exílio, em uma apresentação que virou disco, o sensacional Barra 69. Poucos dias depois, Gil e Caetano eram acompanhados por militares até um avião, onde embarcavam para Londres sob a seguinte advertência: “Só voltem se forem autorizados”.

O exílio foi para Caetano tão duro quanto deveria ser.  Desenraizado à força, o poeta mergulhou de cabeça em um estado tão depressivo como a própria aparência de Londres. Em um dos artigos que escrevia para o Pasquim, direto do exílio, Caetano afirmou sobre ele e Gil: “Estamos mortos”.  Afinal, que é o exílio senão a morte do homem como cidadão.

Apesar das tristezas, em uma das noites frias em Londres, Caetano receberia um visitante que trazia milhões de abraços em sua mala, todo o carinho do povo que aqui ficou, representado pela figura de seu rei, Roberto Carlos. Naquela noite, os últimos versos de “As Curvas da Estrada de Santos” seriam sucedidos pelo mais sincero pranto de Caetano. Segundo ele, foi este o momento que tocou o rei e o inspirou para a canção “Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos”.

Neste período, Caetano gravaria o melancólico disco de 1971, cuja capa trazia apenas seu rosto, fechado, e a profundidade de seu olhar, que traduzia fielmente seu estado de espírito. No mesmo ano, graças ao esforço de sua irmã Bethânia aqui no Brasil, Caetano conseguiria uma permissão especial do governo para retornar ao Brasil, apenas para assistir a missa em comemoração aos 40 anos de casamento de seus pais.

No dia da volta de Caetano, Bethânia, acompanhada do cineasta Gláuber Rocha e de Luiz Carlos Maciel, um dos fundadores do Pasquim, esperou por longas horas a chegada de seu irmão. Enquanto era aguardado em casa, Caetano

Caetano em programa de TV durante o breve regresso

passava por um interrogatório, após ser recebido no aeroporto pelos militares. Entre perguntas e mais perguntas, Caetano seria pressionado a escrever uma canção saudando a construção da Transamazônica.

De volta à Londres, Caetano convoca um time de peso para dar o passo que o consagraria como visionário cultural, revolucionário musical e semeador da libertação intelectual. Acompanhado dos amigos Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Souza, Caetano grava o disco Transa, sua obra de mergulhos mais profundos na alma do ouvinte e, principalmente, do compositor.


O disco

Doce como o ácido que fez Jards Macalé se apaixonar por uma Branca de Neve de cera, no museu Madame Tussaud’s, a canção “You Don’t Know Me” é um aviso verdadeiro para quem conhecia a obra de Caetano antes do disco Transa: você não me conhece. Misturando Edu Lobo e Luiz Gonzaga com desabafos em inglês e uma velha canção sua na voz de Gal Costa, o poeta faz o prefácio perfeito para o resto da obra.

Na sequência, “Nine out of ten” é anunciada por uma vinheta ao melhor estilo jamaicano. Caetano explica: “Eu e o Péricles Cavalcanti descobrimos o reggae em Portobelo Road e me encantou logo. Bob Marley e The Wailers foram a melhor coisa dos anos 70”. Foi a primeira vez em que o reggae aparecia na música brasileira. Em um samba de um pé na África e outro no sertão nordestino, “Nine out of ten” segue e faz o poeta dizer pra quem quiser ouvir: “I’m alive”.

Considerado o maior poeta barroco do Brasil, o baiano Gregório de Matos é dono dos primeiros versos de “Triste Bahia”, retirados de seu poema homônimo, do século XVII. A crescente evolução dos instrumentos e os cantos entoados nos trazem a atmosfera de uma roda de capoeira, diretamente da Bahia ou do outro lado do oceano.

Em certa manhã, o poeta acordou cantando uma velha canção dos Beatles, nada mais natural para quem vivia em Londres nos anos 70. Em “It’s a Long Way”, “The Long and Winding Road” dos Beatles, “Sodade, meu bem, Sodade” de Zé do Norte, “A Lenda do Abaeté” de Dorival Caymmi e “Berimbau”, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, tornam-se uma só canção, o canto mais sublime e transcedental do poeta Caetano Veloso.

A quinta música do disco é uma composição do sambista, cantor, ator e pintor carioca, Monsueto. Explorada em suas nuances mais profundas, “Mora na Filosofia” traz Caetano dando um passo à frente na melodia e estrutura musical do velho samba. “Se seu corpo ficasse marcado / Por lábios ou mãos carinhosas / Eu saberia, a quantos você pertencia / Não vou me preocupar em ver / seu caso não é de ver pra crer”.

A canção seguinte, “Neolithic Man” é tão existencial quanto experimental. Embora soe com extrema brasilidade, Caetano mistura diversos elementos musicais, ditando o clima de psicodelia. Encerrando o disco, “Nostalgia” é um blues com a participação de Angela Ro Ro, na gaita, e, como em diversas outras músicas do disco, Gal Costa.

“Transa” é sem dúvida um dos discos mais importantes da música brasileira, pela mistura revolucionária e iluminada de ritmos e elementos, e por seu contexto cultural e político. É o manifesto da capacidade de caetanear, ou seja, de driblar o óbvio e dar luz ao divino e maravilhoso. A seguir, segue um trecho do documentário “Canções do Exílio: a Labareda que Lambeu Tudo”, que traz depoimentos dos principais personagens desta resenha.

Espero que gostem!

 

 

Download: Caetano Veloso – Transa (1972)

 


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