Coluna O princípio é o verbo apresenta: Jair Bolsonaro, o grande psicanalista

Carl Jung, um dos maiores desbravadores da mente humana, dizia que um conflito só pode ser solucionado quando sua origem é retirada da sombra e trazida para a luz da consciência, a fim de ser analisada e resolvida. Em suas análises, Freud descobriu que na maioria das vezes, a causa de manifestações neuróticas de todos os tipos estava no inconsciente, e cabia à psicanálise trazê-la à tona. É possível encontrar este tipo de pensamento até em registros muito mais antigos, como nos textos bíblicos, que diziam que o perdão só seria possível após o entendimento e confissão de seus pecados a deus.

Embora a solução seja conhecida, existem muitas defesas que impedem a consciência humana de enxergar a verdade escondida. Negações, auto-engano, transferências, e todos os tipos de rota de fuga, servem, por um lado, para evitar a dor de um confrontamento com a realidade, mas acabam por afastar o indivíduo da solução de seus problemas. Dentre as defesas, a mais perigosa é a transferência, que consiste em enxergar a causa e o próprio problema nas outras pessoas, e recriminá-las por isso, trocando o sentimento de culpa pela condenação ao próximo.

Um caso muito comum deste tipo de transferência acontece quando, diante de um caso de corrupção política, um cidadão mostra-se indignado, mesmo sendo adepto de pequenas corrupções do dia a dia, como não devolver um troco que veio a mais, comprar a aprovação em uma prova para carteira de motorista, ultrapassar uma fila de carros pelo acostamento, entre outros diversos exemplos. É muito mais fácil acusar o próximo, escondendo-se em uma aura de perfeição, do que assumir os próprios atos, as próprias opiniões, analisá-las e tentar, talvez, reciclar uma ou outra em prol de uma evolução como indivíduo.

No Brasil, uma prática muito comum, entre todas as classes sociais, é a de disfarçar certas opiniões polêmicas, defendendo-se com acusações quando necessário. “Brasileiros têm olhos de lince para desvios de conduta ao redor, mas são cegos ao olhar para si. Todos se sentem superiores. Há a idéia de que brasileiro é o outro. Se fizer uma pesquisa, mais de 90% vão dizer que não têm preconceito racial. Se perguntar se há preconceito racial no país, mais de 90% dirão que sim. As duas coisas não podem ser verdade ao mesmo tempo”, questiona o filósofo Eduardo Giannetti, em entrevista à Revista Trip do mês de março.

Nestas últimas semanas, uma certa figura ganhou notoriedade ao emitir opiniões polêmicas em rede nacional. Trata-se do militar e deputado federal, Jair Bolsonaro, alguém conhecido por declarar abertamente ser favorável ao regime militar, à tortura, à pena de morte e ao fim das reservas indígenas. Com declarações emblemáticas sobre o homossexualismo, a ditadura, o uso de drogas e o relacionamento entre seu filho e “uma negra”, o qual definiu como promiscuidade, Bolsonaro figurou entre as manchetes de todos os veículos.

As declarações do deputado e a repercussão do fato serviram nas últimas semanas para despertar o debate sobre os temas citados em bares, faculdades e redes sociais. Enquanto grande parte da população mostrou-se indignada, houve gente que preferiu não se manifestar e houve, inclusive, muita gente que demonstrou compartilhar das opiniões de Bolsonaro. Apesar das diferentes reações ao fato, é sabido que a maioria da população concorda em algum ponto com o deputado.

É possível ouvir opiniões assim em todos os tipos de ciclos sociais, de pessoas com pouco ou muito acesso à informação. A discriminação ao pobre, ao negro, ao homossexual, ao deficiente físico, é uma constante assustadora entre os jovens e adultos brasileiros, sendo esta postura mais ou menos disfarçada, de acordo com o grau de convivência ao qual o indivíduo preconceituoso é obrigado a conviver com os indivíduos que discrimina. Inclusive, acredito que seja este grau de convivência um dos principais motivos para que essas opiniões mantenham-se veladas no Brasil, e dificilmente organizadas em movimentos ou passeatas conservadoras, como acontece frequentemente em alguns países europeus.

Discutem-se então medidas legais para criminalizar a discriminação. Fachada. A lei impede apenas que as opiniões discriminatórias sejam expressas, não combate um cenário que é estreitamente ligado com a discriminação. Enquanto isso, o negro, o pobre, o homossexual, o deficiente físico, são subjetivamente ou objetivamente discriminados pela cultura que já está cristalizada junto ao povo brasileiro. E o principal aliado desta discriminação velada é justamente o fato de não poder ser discutida e questionada, uma vez que não é assumida. Como diz a letra dos Racionais, “o primo do cunhado do meu genro é mestiço, racismo não existe, comigo não tem isso”.

Em meio a estas defesas que impedem que o problema seja discutido e resolvido, torna-se interessante a figura de um Jair Bolsonaro, alguém que revela o que grande parte do povo realmente pensa. Embora humanamente desprezível, é necessário que grande parte da população assuma sua postura preconceituosa e discriminatória, para que só assim seja possível mergulhar na sombra coletiva da sociedade e encontrar a solução para este problema. Para quem se identifica, é hora de tirar as máscaras e revelar seu lado. Saúdo, portanto, o grande psicanalista Jair Bolsonaro.

 

 

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2 respostas para Coluna O princípio é o verbo apresenta: Jair Bolsonaro, o grande psicanalista

  1. veggienigga disse:

    Muito bom o texto, cara! O Henrique (Popo) me recomendou seu blog. Parabéns!

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