Cassiano – Cuban Soul (1976)

31/01/11


Zico nunca ganhou uma Copa do Mundo. Chaplin nunca recebeu um Oscar como ator. Gandhi foi morto por um hindu. Cassiano, um dos maiores cantores que o Brasil já teve, vive hoje no esquecimento. Pai da Soul Music brasileira, ao lado de Tim Maia, Cassiano é dono de um jeito inconfundível de cantar, uma mistura de Lupicínio Rodrigues e Stevie Wonder que levou o estilo a um novo patamar.

Poucos sabem, mas além de cantor, Cassiano participou em 1970 do primeiro disco de Tim Maia tocando guitarra e fazendo backing vocals. Os eternos hits deste disco, “Primavera” e “Eu amo você”, são músicas de sua autoria, assim como os sucessos populares “A lua e eu”, regravada pelo grupo de pagode Pixote, e “Coleção”, também conhecida na voz de Ivete Sangalo. Para os mais atentos, “Onda”, também de Cassiano, é a canção que abre “Da Ponte pra Cá”, dos Racionais MCs.

No álbum “Cuban Soul”, de 1976, Cassiano mistura seus dois primeiros discos e encontra a fórmula mágica do Soul. Embora goste muito, muito mesmo, de “Imagem e som”, de 1971, e “Apresentamos nosso Cassiano”, de 1973, escolhi este disco para ilustrar a sonoridade deste gênio. Infelizmente, “Cuban Soul” seria o último disco de músicas inéditas do cantor.

Espero que gostem e passem adiante!

Download: Cassiano – Cuban Soul (1976)

 


Jorge Ben – Sacundin Ben Samba (1964)

18/01/11

Em 1964 foi lançado um dos melhores discos do Antigo Testamento do Zé Pretinho. Arranjado pelo genial saxofonista J.T. Meirelles e seus fiéis Copa 5, Sacundin Ben Samba é o segundo álbum da carreira de Jorge Ben. Misturando vocais doces e hipnóticos com um samba-jazz de peso, Jorge Ben nos leva para um passeio lisérgico por suas raízes mais profundas.

A genial “Anjo Azul”, faixa de abertura, chega calmamente como um dia quente de verão que irrompe em uma tempestade comandada por Ben e Meirelles. De uma simplicidade angelical, como o próprio nome já diz, “Anjo Azul” trata o amor de forma sublime, algo que transparece na melodia.

Apelidada de “a filha de Mas, que nada”, “Nena Nanã” é a segunda pedrada deste disco. Misturando pioneiramente psicodelia ao samba, Jorge Ben apresentava ao mundo seu “samba esquema novo”. Na canção seguinte, “Vamos embora Uau”, o sentimental Jorge Ben canta sua tristeza com a maestria que ficaríamos acostumados a admirar. Sempre acreditei que o “berimbau” que Jorge se refere na música se trata de alguma gíria, para algo que lhe dá inspiração e alegria. Deixo em aberto para interpretações…

Antecipando os clássicos “Afro-sambas” e “Eis o ôme” de Vinícius de Moraes e Noriel Vilela respectivamente, Sacundin Ben Samba traz o clima das senzalas, dos terreiros e capoeiras, misturado a intensos clímaces de jazz. Essa é a atmosfera de “Capoeira”, quarta faixa do disco. “Mesmo sofrendo, mesmo chorando / Negro tem que levar a vida cantando”, diz a canção.

Muito antes de compôr o clássico “Charles, Anjo 45”, Jorge Ben já exaltava o malandro esperto nos versos de “Gimbo”. “Tira Gimbo de quem tem / e dá Gimbo a quem não tem”, cantava aquele que não aprendeu o idioma do subúrbio na universidade. Em “Carnaval Triste”, Ben, pandeirista de bloco de carnaval durante a infância, nos traz o clima da época de ouro do carnaval e os blocos de rua. “Rasguei a fantasia e chorei / Chorei, por não poder brincar”.

Na seqüência, uma das canções mais bonitas de Jorge Ben. Posteriormente regravada no “África Brasil”, de 1976, “A Princesa e o Plebeu” conta a história de um homem pobre apaixonado por uma princesa. Particularmente, acho a primeira versão muito melhor do que a segunda. Na mesma linha vem “Menina do Vestido Coral”, outro clássico entre as românticas do mestre. “Não me olhes assim / Pois meu juízo é perfeito / não quero ele ruim”…

Sobre a nona faixa do disco é difícil dar pistas. Só mesmo o neologismo “Candomblezz” pode descrever a musicalidade de “Pula Baú”, uma das minhas preferidas de toda a obra de Jorge Ben. Combinando o jazz com ritmos africanos, Ben canta sobre a triste situação da vida de um homem quando lhe convidam para um baile onde faltam mulheres.

Mergulhando de cabeça em suas raízes, Jorge Ben canta histórias do tempo de seus antepassados. “Jeitão de Preto Velho” é um lindo samba sobre um velho escravo que é padrinho de sua “sinhá”. Pode-se sentir a ternura em suas palavras. Na seqüência, “Espero por você” encanta pela beleza que Jorge Ben enxerga nos sentimentos. “Espero por você / Como espera a flor o orvalho da manhã/ O amor vem de você / Como vem o sol o dia clarear”.

A última música do disco nos faz voltar alguns séculos para o tempo em que a Lei do Ventre Livre foi assinada. Em “Não desanima João”, basta fecharmos os olhos para enxergarmos a história de um pequeno menino que será livre da escravidão. O desfecho perfeito para um disco que nos faz viajar por diferentes histórias, extensões da alma do poeta Babulina e seu violão.

Espero que gostem!

Download: Jorge Ben – Sacundin Ben Samba (1964)

 


Tim Maia – Tim Maia (1976)

18/01/11

O ano era 1976.  Após desencantar-se com a Cultura Racional,  energia motriz de Tim Maia Racional Volume 1 e Volume 2,  o mestre mergulhava de nariz novamente nos prazeres da vida. Neste disco,  Tim Maia e a Vitória Régia trazem a melhor mistura do Groove com o Samba Soul, especialidade da casa.

“Dance enquanto é tempo”, primeira faixa do disco, ilustra bem o clima que está por vir. “Vê se deixa essa tristeza, bicho/ Pega a dama e vem dançar/ Até eu que estava nessa, bicho/ Decidi vou me soltar”.  Seguindo a linha positivista, “É preciso amar” encanta como balada lisérgica, aquecendo os bons ouvidos e os bons pensamentos para as pedradas que estão a caminho.

Enquanto isso,  do outro lado do mar do Rio de Janeiro, alguns países do continente africano passavam por um período conturbado de segregação racial e violência.  Após dizer que em Guiné Bissau, Moçambique e Angola estava tudo numa boa, Tim canta seu apoio a seus irmãos de cor, pedindo luta e resistência (“Sei que és do som/Não és de matar/Mas não vás deixar pra lá”). “Rodésia” (antigo nome da nação hoje chamada de Zimbábue) traz Tim tocando flauta e uma sonoridade inspirada da banda Vitória Régia.

A quarta pérola do disco é um funk de primeira com resquícios dos ingredientes racionais. Márcio Leonardo e Telmo, que dão nome à faixa, são respectivamente Léo Maia e Carmelo Maia, filhos do Síndico. A tal SEROMA (iniciais de Sebastião Rodrigues Maia) onde seus filhos “vieram pra brincar” era o selo de Tim. Uma curiosidade sobre essa história é que apesar de Carmelo e Léo levarem o título Maia em seus nomes, Tim não era o pai biológico de nenhum dos dois, embora ambos tenham a mesma mãe.

Na seqüência, duas pedradas! “Sentimental” traz todo o peso emocional de Tim Maia, abrindo suas defesas em um groove com o selo Vitória Régia de qualidade. “Nobody Can Live Forever” pode ser considerada a sombra do hino “Imunização Racional”. Toda a sua frustração com a seita Racional e as crenças religiosas está expressa nestes versos que dizem que ninguém pode viver pra sempre, e que essa conversa de céu e inferno é uma grande besteira!

Em “Me enganei”, Tim canta a decepção de um amor que se acaba e o fim de sonhos e planos criados em cima de um outro alguém. A faixa seguinte é um aperitivo para o sensacional disco de 1978, o “What’s going on” (Marvin Gaye, 1971) de Tim Maia. “Manhã de sol florida, cheia de coisas maravilhosas” é uma das maiores declarações de amor à vida que eu já ouvi. Com um arranjo que atinge o fundo da alma, Tim consegue traduzir fielmente o clima de esperança e alegria que se sente quando se está apaixonado pelo lado bom da vida.

A nona faixa do disco é o funk “Brother, Father, Sister and Mother”, onde Tim pede para seus irmãos acordarem e pararem de perder seu tempo em igrejas e com crenças do tipo. A próxima música é simplesmente genial! “Batata-Frita, o Ladrão de Bicicletas” é um groove aparentemente non-sense que nos leva em uma viagem até os anos 70. Para maior entedimento da mensagem, vale ressaltar que a “bicicleta” citada na música é um tipo famoso de LSD.

Na última faixa deste disco, que é um dos meus três preferidos do mestre, “The Dance is Over” encerra o espetáculo. Como diz o refrão, a dança acabou e é hora de enfrentar a realidade. Um samba soul de respeito, com distorções de guitarra e tudo que se tem direito.

Quando se fala de Tim Maia, muitos cometem o erro de cair na dualidade da fase popular versus a fase racional. Acredito que os melhores discos do Tim estão no “pré” e no “pós” Tim Maia Racional. Este disco de 1976, por exemplo, é um que de tempos em tempos volta às minhas playlists. Espero que todos possam desfrutar de todo o poder que esse disco tem e que consigam adentrar o universo de um dos maiores gênios da música: o eterno Síndico!

Até o próximo post!

Download: Tim Maia – Tim Maia (1976)



Abrindo os trabalhos

01/01/11

As primeiras horas de um novo ano sempre trazem inspiração. A esperança num futuro abstrato nos permite planejar novos caminhos para nossas vidas, novos objetivos, novas maneiras para enfrentarmos velhos problemas. Expressar em palavras tudo o que acontece na minha mente e meu coração sempre foi o maior dos meus desafios, uma tarefa libertadora que me encantou desde a primeira vez que notei como as palavras tomavam vida própria em contato com uma folha de papel.

Que coisa incrível poder enxergar histórias de olhos fechados, atenuar a linha que separa o sonho da realidade. Que  dom magnífico tem o escritor: passeia pelas escadarias do infinito usando suas palavras como degraus. Qualquer realidade pode ser inventada na construção de um texto, a vida é continuada enquanto se nutre um pensamento, nada é interrompido, tudo é natural.

Não por acaso, um bom texto soa como música. Todas as artes provém desta mesma natureza que, como que por capricho, nos permanece oculta à consciência, embora jamais inacessível. Dotados de emoção, justamente nos sentimos atraídos a tudo que nos reaproxime desta natureza. A imaginação é o caminho, é a energia cinética da mente. Filmes, livros e discos são portas de entrada para o mundo pelo qual sentimos uma profunda saudade no fundo de nossos corações.

Oferecer, portanto, palavras sinceras, músicas e idéias que me acompanham pelo caminho, é também oferecer um pouco da minha alma.

Sejam bem-vindos!


%d blogueiros gostam disto: