Novos Baianos – Acabou Chorare (1972)

15/02/11

 

“Acabou Chorare”, de 1972, é muito mais do que um disco. Pode ser considerado um manifesto, uma viagem coletiva, uma Tábua de Esmeraldas, uma trilha sonora de algo muito maior. Pode ser considerado o hino oficial deste time baiano que vinha a campo com o camisa 10, Moraes Moreira, os pontas Baby e Paulinho Boca de Cantor, a zaga com Dadi, Jorginho, Baixinho, Bolacha e o centroavante Pepeu, todos sob a tática do professor Galvão.

Eleito pela revista Rolling Stone como o maior disco da história brasileira, “Acabou Chorare” é também o meu preferido dentre a obra destes baianos. É o ponto alto da mistura perfeita entre o violão de Dorival Cayimmi e a guitarra lisérgica de Jimi Hendrix. É como ser convidado a passar um fim de noite no “Cantinho do Vovô”, um pequeno sítio em Jacarepaguá que abrigava, de maneira anárquica e harmônica, toda a família Novos Baianos.

Conta a história que pouco tempo antes deste disco ser gravado, o grupo recebeu diversas visitas do cantor João Gilberto, que os influenciaria a acrescentar o samba à sonoridade dos Novos Baianos. Foi, inclusive, por sugestão de João Gilberto que o grupo gravou “Brasil Pandeiro”, samba de Assis Valente, na primeira faixa do disco. Com versos que exaltam, ao mesmo tempo, a cultura brasileira e a mistura desta com outras culturas, este samba ilustraria perfeitamente a universalidade do som dos Novos Baianos.

Assim como a primeira, a segunda faixa do disco tornou-se um dos maiores sucessos da carreira do grupo, sendo lembrada em qualquer roda de violão que este que vos escreve esteja. “Preta Pretinha”, uma das melodias mais doces da música brasileira, fala sobre uma moça que Galvão conheceu em Niterói. O trato era que pegassem a barca, Galvão fosse apresentado ao pai da moça, e na volta os dois morariam juntos na sede dos Novos Baianos, ainda um apartamento em Botafogo na época. Na última hora, a moça desistiu e voltou para seu antigo namorado. Seremos eternamente gratos por isso!

Na seqüência, “Tinindo Trincando” arrebata o ouvinte e nos convida para passear por um mundo lisérgico e natural, morada de Baby e Pepeu durante três minutos de pura psicodelia brasileira. Uma curiosidade sobre as distorções ácidas de Pepeu, é que ainda não haviam recursos para peças novas serem compradas para a sua Gianinni Supersonic. Parte dos agradecimentos devem ser destinados ao engenheiro e amigo de Pepeu, Paulo César Salomão, que atravessou noites estudando eletrônica até ter a brilhante idéia de equipar a guitarra de Pepeu com capacitores de uma televisão velha. O resultado pode ser ouvido nesta faixa.

Composta (em parceria com Galvão e Morais) e cantada por Paulinho Boca de Cantor, “Swing de Campo grande” é um samba com muito regionalismo e poesia, um misto da melancolia dos antigos com a alegria dos novos. Em entrevista à Rolling Stone, Paulinho atribuiu o refrão “Eu não marco touca / Eu viro toco / eu viro moita” aos conselhos de um rezador sobre como esquivar-se do mal (e da ditadura também). Segundo Paulinho, eles ficaram cinco anos sem pagar o IPVA do carro. “Passávamos pelos postos da Polícia Rodoviária e olhávamos para nossas próprias línguas. Ele nos ensinara que se olhássemos para nós mesmos ninguém nos veria”.

A quinta faixa, que dá nome também ao disco, não tem apenas em sua sonoridade bossanovística a influência de João Gilberto, o mentor espiritual do grupo. Hoje cantora internacionalmente conhecida, Bebel Gilberto era só uma criança quando, após cair sobre o chão batido do “Cantinho do Vovô”, disse a frase que encantaria a todos os presentes: “Não machucou papai, acabou chorare”. Ninguém melhor do que uma criança para frasear o espírito dos Novos Baianos. “Invadiu minha casa / me acordou na cama / Tomou o meu coração / e sentou na minha mão/ Abelha, abelhinha”.

Em seguida, o dedilhado de Morais prefacia uma das canções mais geniais já materializadas. “Mistério do Planeta” é como, o nome já diz, a natureza misteriosa em forma de versos e acordes. Considero ser esta a canção que melhor define os Novos Baianos: a doce melodia de Paulinho sobre o violão de Morais, anunciando o solo ácido de Pepeu. Um verdadeiro clássico!

A sétima música do disco é a poetização do espírito doce e independente de uma das maiores cantoras que o Brasil teve, Baby Consuelo. Ao mesmo tempo, “A Menina Dança” ilustra o que há de mais bonito em todas as mulheres, a alegria, ainda que rebelde, e o colorido do espírito feminino, gerador de vida por natureza. “Dentro da menina / a menina dança / até o sol raiar / até dentro de você nascer / nascer o que há”.

Segundo Morais, “Besta é Tu” é uma espécie de onomatopéia para o samba, repetido como um mantra em incontáveis rodas no “Cantinho do Vovô”. Definida como a canção “com maior teor lisérgico” do disco, “Besta é Tu” nos desperta para o agora, para o sol que está a brilhar, para o estádio no domingo. A espera por um além-mundo pode nos desviar do verdadeiro sentido da vida, que nada mais é do que viver. Então “por que não viver / não viver este mundo? / se não há outro mundo”.

Encerrando o disco, “Um bilhete para Didi” é uma mistura ácida de frevo, baião e chorinho, em uma interação brilhante entre Pepeu e Jorginho, sem precedentes na música. É o principal som do “rockarnaval”, um dos estilos atribuídos aos Novos Baianos. O disco ainda contém um segundo take de “Preta Pretinha”, uma versão mais “direto ao ponto” feita para tocar nas rádios.

A audição deste disco, assim como a leitura desta resenha, é essencialmente compatível com o documentário “Novos Baianos F.C.”, de Solano Ribeiro para uma emissora de televisão alemã. Em registros preciosíssimos, Solano eternizaria alguns dos momentos mais importantes da música brasileira neste documentário. Abaixo, segue a primeira parte do filme. A quem se interessar, os trechos restantes encontram-se aqui.

Até o próximo post!

 

 

Download: Novos Baianos – Acabou Chorare (1972)

 

 


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