Tom Zé – Todos os olhos (1973)

23/03/11

 

Costuma-se chamar de gênio um indivíduo que consegue enxergar o mundo à sua volta por um prisma diferente dos demais, alguém que é capaz de entender certos mistérios da vida antes do que a maioria dos homens de seu tempo. Diz-se também, que esta vivência separada dos paradigmas de seu meio atenua a linha que separa a genialidade da loucura, duas faces humanas incompreendidas por nossa cultura. Se existe um homem na música brasileira que ilustra as afirmações anteriores, este atende pelo nome de Tom Zé.

Música não, rebeldia, como ele próprio afirma em entrevista à Caros Amigos de fevereiro deste ano. “Eu acho que eu não faço música. Música é só o pretexto, eu faço rebeldia. Rebeldia. Aquela proteína que entre os 13 e os 50 anos se a geração não tiver rebeldia, ela entra em falência. Primeiro, ela tem que compreender seu tempo e depois negar o seu tempo e cometer a rebeldia mesmo, dela, que ninguém controla”.

Incompreendido por uma geração que ainda não estava pronta para o abandono dos moldes tradicionais, Tom Zé é um pilar esquecido do Tropicalismo. Sua evolução não foi acompanhada pelo público e, embora tenha participado dos grandes festivais no começo de sua carreira, o lançamento do disco “Todos os Olhos”, de 1973, marca a ruptura do mercado com o artista. Algo curioso para uma época cultural tida como questionadora e revolucionária. Ouso imaginar que mesmo dentro do alternativismo tropicalista, era preciso ser esteticamente rentável.

Após anos de ostracismo em sua carreira, esquecido por seus antigos companheiros Caetano e Gil, Tom Zé estava “enterrado vivo”, como ele mesmo diz. Foi durante uma visita de David Byrne, dos Talking Heads, ao Brasil dos anos oitenta, que Tom Zé seria resgatado. “Graças a um arrumador de loja desastrado que colocou meu disco, Estudando o Samba, junto com os outros pagodes”, afirma. Diante daquela obra tão rica e atual (mesmo sendo de 1976), Byrne se apressou em lançar Tom Zé na Europa e Estados Unidos, popularizando o artista brasileiro mundo afora.

Como bom povo provinciano, acostumado desde suas origens a macaquear o comportamento de seus colonizadores, foi necessária a aprovação de um estrangeiro para que se reconhecesse, após décadas, o valor do genial Tom Zé em sua própria terra. Ainda assim, em terra brasilis, o baiano de Irará tem entre o grande público nada mais do que o conhecimento de seu nome. Como tantos outros gênios da história, muito se fala a seu respeito, enquanto pouco se escuta da sua mensagem.

 

O disco

Embora existam diferentes versões para a história da capa de “Todos os olhos”, fazer uma alusão subliminar ao olho menos ortodoxo da anatomia humana, em uma capa de disco lançada nos anos de chumbo da ditadura, já é algo provocador o bastante para escandalizar até as gerações mais modernas. Musicalmente, Tom Zé funde neste disco todas as suas dissonâncias com o néctar do samba, com os refrões memorizáveis e sua poesia que dialoga com o íntimo do ouvinte, que chega a sentir proximidade do poeta.

Entretanto, antes que se corra o risco de pensar que sua obra pertence aos domínios da complexidade intelectualóide, Tom Zé avisa: “Todo compositor brasileiro é um complexado / Por que então essa mania danada / esta preocupação de falar tão sério, / de parecer tão sério, / de ser tão sério, / de sorrir tão sério, / de chorar tão sério, / de brincar tão sério, / de amar tão sério? / Ai, meu deus do céu vai ser sério assim no inferno”.

Uma vez que algo é simples, não significa que não seja sofisticado. Como bom antropófago, Tom Zé revive a melancolia da cantora Dolores Duran com “A noite do meu bem”, em uma versão onde os vazios entre as notas flertam com o vazio que existe dentro do próprio ouvinte. Na sequência, em uma parceria com um dos criadores da Poesia Concreta, Augusto de Campos, Tom Zé brinca com as palavras e os sentidos em “Cademar”.

Humano, demasiado humano, como a famosa obra de Nietzsche, é o pensamento que dá luz à quarta música do disco, a experimental “Todos os olhos”. É preciso acordar do impulso que nos transforma em deuses, que nos cria a necessidade de heroísmo, força absoluta e conhecimento sobre todas as coisas. Como Tom Zé, somos inocentes, somos até fracos e não sabemos de nada. Somos apenas humanos, demasiado humanos.

Assim como no disco anterior, “Se o caso é chorar” de 1972, Tom Zé é acompanhado no disco “Todos os Olhos” pela banda Capote, o psicodélico grupo do cantor Odair Cabeça de Poeta. Ao melhor estilo “Baiano e os Novos Caetanos”, trio humorístico formado nos anos 70 por Chico Anysio, Arnaud Rodrigues e Renato Piau, a canção “Dodó e Zezé” é uma conversa entre os matutos Tom Zé (Zezé) e Odair Cabeça de Poeta (Dodó).

Em “Quando eu era sem ninguém”, Tom Zé canta o clima de Irará, uma terra, segundo ele, pré-gutemberguiana, onde todas as tradições eram passadas oralmente. Embora a esta época já fosse um “velho baiano” no cenário musical brasileiro, a canção familiariza-se bastante com as canções de Pepeu, Moraes, Galvão, Baby e Paulinho, os Novos Baianos. Na sequência, em “Brigitte Bardot”, Tom Zé percebe que nem ícones como Brigitte Bardot, musa dos sonhos de toda uma geração, são poupados pelo tempo.

Embora a grande vencedora do Festival de Música Popular Brasileira de 1968, “São São Paulo, meu amor”, seja considerada o hino da cidade por compreendê-la com olhos paulistas (do baiano Tom Zé), nenhuma de suas canções soa mais paulistana do que o samba “Augusta, Angélica e Consolação”. “Augusta, graças a deus / entre você e a Angélica / eu encontrei a Consolação / que veio olhar por mim / e me deu a mão”, canta o poeta,  “adonirando” a cidade . “Quando eu vi, / que o Largo dos Aflitos / não era bastante largo / pra caber minha aflição, / eu fui morar na Estação da Luz / porque estava tudo escuro / dentro do meu coração”.

Considerada pelo próprio Tom Zé como a idéia mais fantástica que já teve, sua teoria sobre lixo lógico é o fio condutor de “Botaram tanta fumaça”. Em entrevista à Caros Amigos, ele explica: “A gente chegava na escola, o professor explicava aristotelicamente, a gente comparava com a educação da gente e quando chegava aqui dizia ‘É, dá certo, mas sobra aqui… Joga pra lá, porque a escola é que ta certa’. O ginásio joga uma porrada de coisa, o colégio joga uma porrada, a universidade joga tudo aqui. Aí um belo dia isso foi ficando tão pesado, feito um aleijado, que a pessoa tem mais coisa no hipotálamo que no córtex”.

Presente também no disco de 1970, “O Riso e a Faca” é coisa das mais bonitas, uma valsa intimista que escuta Tom Zé declamar sua poesia. E então, quando você pensa que está começando a entender, “Um Oh e um Ah” chega para lhe mostrar que o incompreensível é nada mais do que aquilo que não pode ser resumido, aprisionado e classificado. Logo após, há ainda uma segunda versão de “Complexo de Épico” fechando as cortinas e encerrando o disco.

Abaixo, como complemento essencial indico “Fabricando Tom Zé”, do diretor Decio Matos Junior, onde Tom Zé é acompanhado pela equipe do documentário em sua turnê do ano de 2005. Misturando causos do passado com o cotidiano do músico e poeta, o documentário acrescenta entrevistas com Gil e Caetano, entre outros, para situar o espectador.

Espero que gostem!

 

 

Download: Tom Zé – Todos os olhos (1973)

 

 


Novos Baianos – Acabou Chorare (1972)

15/02/11

 

“Acabou Chorare”, de 1972, é muito mais do que um disco. Pode ser considerado um manifesto, uma viagem coletiva, uma Tábua de Esmeraldas, uma trilha sonora de algo muito maior. Pode ser considerado o hino oficial deste time baiano que vinha a campo com o camisa 10, Moraes Moreira, os pontas Baby e Paulinho Boca de Cantor, a zaga com Dadi, Jorginho, Baixinho, Bolacha e o centroavante Pepeu, todos sob a tática do professor Galvão.

Eleito pela revista Rolling Stone como o maior disco da história brasileira, “Acabou Chorare” é também o meu preferido dentre a obra destes baianos. É o ponto alto da mistura perfeita entre o violão de Dorival Cayimmi e a guitarra lisérgica de Jimi Hendrix. É como ser convidado a passar um fim de noite no “Cantinho do Vovô”, um pequeno sítio em Jacarepaguá que abrigava, de maneira anárquica e harmônica, toda a família Novos Baianos.

Conta a história que pouco tempo antes deste disco ser gravado, o grupo recebeu diversas visitas do cantor João Gilberto, que os influenciaria a acrescentar o samba à sonoridade dos Novos Baianos. Foi, inclusive, por sugestão de João Gilberto que o grupo gravou “Brasil Pandeiro”, samba de Assis Valente, na primeira faixa do disco. Com versos que exaltam, ao mesmo tempo, a cultura brasileira e a mistura desta com outras culturas, este samba ilustraria perfeitamente a universalidade do som dos Novos Baianos.

Assim como a primeira, a segunda faixa do disco tornou-se um dos maiores sucessos da carreira do grupo, sendo lembrada em qualquer roda de violão que este que vos escreve esteja. “Preta Pretinha”, uma das melodias mais doces da música brasileira, fala sobre uma moça que Galvão conheceu em Niterói. O trato era que pegassem a barca, Galvão fosse apresentado ao pai da moça, e na volta os dois morariam juntos na sede dos Novos Baianos, ainda um apartamento em Botafogo na época. Na última hora, a moça desistiu e voltou para seu antigo namorado. Seremos eternamente gratos por isso!

Na seqüência, “Tinindo Trincando” arrebata o ouvinte e nos convida para passear por um mundo lisérgico e natural, morada de Baby e Pepeu durante três minutos de pura psicodelia brasileira. Uma curiosidade sobre as distorções ácidas de Pepeu, é que ainda não haviam recursos para peças novas serem compradas para a sua Gianinni Supersonic. Parte dos agradecimentos devem ser destinados ao engenheiro e amigo de Pepeu, Paulo César Salomão, que atravessou noites estudando eletrônica até ter a brilhante idéia de equipar a guitarra de Pepeu com capacitores de uma televisão velha. O resultado pode ser ouvido nesta faixa.

Composta (em parceria com Galvão e Morais) e cantada por Paulinho Boca de Cantor, “Swing de Campo grande” é um samba com muito regionalismo e poesia, um misto da melancolia dos antigos com a alegria dos novos. Em entrevista à Rolling Stone, Paulinho atribuiu o refrão “Eu não marco touca / Eu viro toco / eu viro moita” aos conselhos de um rezador sobre como esquivar-se do mal (e da ditadura também). Segundo Paulinho, eles ficaram cinco anos sem pagar o IPVA do carro. “Passávamos pelos postos da Polícia Rodoviária e olhávamos para nossas próprias línguas. Ele nos ensinara que se olhássemos para nós mesmos ninguém nos veria”.

A quinta faixa, que dá nome também ao disco, não tem apenas em sua sonoridade bossanovística a influência de João Gilberto, o mentor espiritual do grupo. Hoje cantora internacionalmente conhecida, Bebel Gilberto era só uma criança quando, após cair sobre o chão batido do “Cantinho do Vovô”, disse a frase que encantaria a todos os presentes: “Não machucou papai, acabou chorare”. Ninguém melhor do que uma criança para frasear o espírito dos Novos Baianos. “Invadiu minha casa / me acordou na cama / Tomou o meu coração / e sentou na minha mão/ Abelha, abelhinha”.

Em seguida, o dedilhado de Morais prefacia uma das canções mais geniais já materializadas. “Mistério do Planeta” é como, o nome já diz, a natureza misteriosa em forma de versos e acordes. Considero ser esta a canção que melhor define os Novos Baianos: a doce melodia de Paulinho sobre o violão de Morais, anunciando o solo ácido de Pepeu. Um verdadeiro clássico!

A sétima música do disco é a poetização do espírito doce e independente de uma das maiores cantoras que o Brasil teve, Baby Consuelo. Ao mesmo tempo, “A Menina Dança” ilustra o que há de mais bonito em todas as mulheres, a alegria, ainda que rebelde, e o colorido do espírito feminino, gerador de vida por natureza. “Dentro da menina / a menina dança / até o sol raiar / até dentro de você nascer / nascer o que há”.

Segundo Morais, “Besta é Tu” é uma espécie de onomatopéia para o samba, repetido como um mantra em incontáveis rodas no “Cantinho do Vovô”. Definida como a canção “com maior teor lisérgico” do disco, “Besta é Tu” nos desperta para o agora, para o sol que está a brilhar, para o estádio no domingo. A espera por um além-mundo pode nos desviar do verdadeiro sentido da vida, que nada mais é do que viver. Então “por que não viver / não viver este mundo? / se não há outro mundo”.

Encerrando o disco, “Um bilhete para Didi” é uma mistura ácida de frevo, baião e chorinho, em uma interação brilhante entre Pepeu e Jorginho, sem precedentes na música. É o principal som do “rockarnaval”, um dos estilos atribuídos aos Novos Baianos. O disco ainda contém um segundo take de “Preta Pretinha”, uma versão mais “direto ao ponto” feita para tocar nas rádios.

A audição deste disco, assim como a leitura desta resenha, é essencialmente compatível com o documentário “Novos Baianos F.C.”, de Solano Ribeiro para uma emissora de televisão alemã. Em registros preciosíssimos, Solano eternizaria alguns dos momentos mais importantes da música brasileira neste documentário. Abaixo, segue a primeira parte do filme. A quem se interessar, os trechos restantes encontram-se aqui.

Até o próximo post!

 

 

Download: Novos Baianos – Acabou Chorare (1972)

 

 


%d blogueiros gostam disto: