Coluna Tem que escutar, escutando apresenta: Um safari pelo samba

04/07/11

samba safari

 

Quando paramos pra pensar no desenvolvimento do homem antigo pelas diferentes regiões do planeta, algumas similaridades nos permitem traçar um fio condutor e uniformizar o espírito humano, alcançando o significado do termo Essência. Expressão sincera, fluida e nestes casos, compartilhada por todo um grupo, a música é talvez o campo que mais demonstre estas semelhanças entre espíritos de épocas e regiões completamente diferentes.

Tal qual a descoberta da roda, que surgiu para preencher uma necessidade humana, a utilização de tambores (feitos com troncos de árvores e mais tarde peles de animais) é prática presente em diversos povos desde os tempos mais remotos. Estritamente relacionadas com as celebrações e rituais religiosos, as batucadas serviam também como meio de comunicação em muitos grupos, tanto para com receptores distantes, quanto como um meio de discurso dentro da própria comunidade.

Mais antiga ainda que o surgimento dos tambores é a percepção da voz como instrumento e do movimento corporal como conexão espiritual e musical, aquilo que chamamos de canto e de dança. Junte tudo isso e perceberemos a semelhança que há nos rituais de povos de contextos totalmente diferentes e sem nenhuma comunicação entre eles, desde tribos africanas a povos nativos sul-americanos (erroneamente chamados de indígenas).

Para quem não se interessa pela história, não é preciso ir tão longe. Uma breve pesquisa demonstrará às mentes abertas que quase todos os estilos musicais populares hoje em dia, derivam destas mesmas batucadas citadas anteriormente. Em especial, uma destas formas de se tocar ilustra muito bem este processo de ancestralidade musical. Parafraseando o poeta Jorge Ben, dou uma dica sobre sua identidade: “Filha de nobres africanos, que por um descuido geográfico, nasceu no Brasil num dia de Carnaval”.

Se você ainda não sabe de quem estou falando, deixarei que o próprio som manifeste-se através das palavras de Zé Kéti: “Eu sou o samba”! Sinônimo de festa, cultura, sentimento e arte, o samba nunca teve dificuldade nenhuma em ser a voz do povo: ele é desde sempre uma genuína forma de expressão da alma humana. Seja em suas raízes tribais africanas, seja nos versos tão sofridos de Nelson Cavaquinho, seja ainda no batuque vindo do Fundo de Quintal. O samba é sinônimo de Brasil!

A fim de abrir uma porta de entrada para que você, leitor e ouvinte, mergulhe de cabeça nas raízes deste som, assim como na própria alma destes sambistas (e por que não em sua própria alma?), o Samba Safari traz mais uma mixtape produzida pelo professor Luciano Alves, com mais de uma hora de viagem pelos diversos tipos e sabores de samba. Com as bênçãos de todos os santos e orixás, candombless!

 

Clique no player abaixo para escutar a mixtape Samba Safari – Um safari pelo samba (por Luciano Alves)

[audio http://www.fileden.com/files/2011/7/7/3164031//Mix Samba – Safari – julho 2011-.mp3]

Caso não consiga ouvir, escute por aqui!

 

Para baixar a mixtape e escutar em casa, clique aqui!

 

01 – Orquestra Afro Brasileira – Apresentação De Paulo Roberto
02 – Almirante & Pixinguinha c. Grupo da Velha Guarda – Pelo Telefone
03 – Zé Keti – A Voz Do Morro
03 – Adoniran Barbosa – Saudosa Maloca
04 – Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim & Conj. Época de Ouro – Barracão
05 – Clementina de Jesus – Na linha do mar
06 – Nei Lopes – Cara E Coroa
07 – Martinho da Vila – Batuque Na Cozinha
08 – Beth Carvalho – Coisinha Do Pai
09 – Adoniran Barbosa & Esterzinha de Souza – Letra de Samba
10 – Johnny Alf – Rapaz de Bem
11 – Sílvia Telles com Barney Kessel – Manhã de Carnaval
12 – Elis Regina – Upa neguinho
13 – Jacob do Bandolim & Zimbo Trio – Chega de Saudade
14 – Nara Leão – Tic-Tac do Meu Coração
15 – Luciano Perrone (Batucada Fantástica Vol. 3) – Samba Quente
16 – Martinho da Vila – Canta, Canta Minha Gente
17 – Beth Carvalho – Agoniza Mas Não Morre
18 – Cartola – Preciso me Encontrar
19 – Candeia – História de Pescador
20 – A Fantástica Bateria – Tratado de Ritmo 1
21 – Luiz Carlos Da Vila – Canta Candeia – De Qualquer Maneira
22 – Moacyr Luz E Aldir Blanc (Velha Guarda Mangueira) – Cachaça, Árvore E Bandeira
23 – Cartola – O mundo é um moinho
24 – Clara nunes – Marinheiro Só
25 – Martinho da Vila – Casa de Bamba
26 – A Fantastica Bateria – Tratado de Ritmo II
27 – João Nogueira – Boteco Do Arlindo
28 – Partido em 5 Samba Som 7 – Festa de Rato e Trambiqueiro
29 – Jorge Veiga – Na Cadência Do Samba
30 – Chico buarque – Fica
31 – Tom Zé – Tô
32 – João Bosco – O Bêbado E a Equilibrista
33 – Luciano Perrone (batucada fantástica vol 3) – Cuíca, Pandeiro, Agogô, Atabaques e Surdos
34 – A Fantástica Bateria – Tratado de Ritmo 2
35 – Bezerra da Silva – Pagode na casa do Gago
36 – Aparecida – Tereza Aragão
37 – Fundo de Quintal – O show tem que continuar
38 – Zeca Pagodinho – Spc
39 – Beth Carvalho – Lenço
40 – Fundo de Quintal – A Batucada Dos Nossos Tantãs
41 – Bezerra da Silva – Malandragem, Dá Um Tempo
42 – Grupo Raça – Dona da Minha Sina

 

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Tom Zé – Todos os olhos (1973)

23/03/11

 

Costuma-se chamar de gênio um indivíduo que consegue enxergar o mundo à sua volta por um prisma diferente dos demais, alguém que é capaz de entender certos mistérios da vida antes do que a maioria dos homens de seu tempo. Diz-se também, que esta vivência separada dos paradigmas de seu meio atenua a linha que separa a genialidade da loucura, duas faces humanas incompreendidas por nossa cultura. Se existe um homem na música brasileira que ilustra as afirmações anteriores, este atende pelo nome de Tom Zé.

Música não, rebeldia, como ele próprio afirma em entrevista à Caros Amigos de fevereiro deste ano. “Eu acho que eu não faço música. Música é só o pretexto, eu faço rebeldia. Rebeldia. Aquela proteína que entre os 13 e os 50 anos se a geração não tiver rebeldia, ela entra em falência. Primeiro, ela tem que compreender seu tempo e depois negar o seu tempo e cometer a rebeldia mesmo, dela, que ninguém controla”.

Incompreendido por uma geração que ainda não estava pronta para o abandono dos moldes tradicionais, Tom Zé é um pilar esquecido do Tropicalismo. Sua evolução não foi acompanhada pelo público e, embora tenha participado dos grandes festivais no começo de sua carreira, o lançamento do disco “Todos os Olhos”, de 1973, marca a ruptura do mercado com o artista. Algo curioso para uma época cultural tida como questionadora e revolucionária. Ouso imaginar que mesmo dentro do alternativismo tropicalista, era preciso ser esteticamente rentável.

Após anos de ostracismo em sua carreira, esquecido por seus antigos companheiros Caetano e Gil, Tom Zé estava “enterrado vivo”, como ele mesmo diz. Foi durante uma visita de David Byrne, dos Talking Heads, ao Brasil dos anos oitenta, que Tom Zé seria resgatado. “Graças a um arrumador de loja desastrado que colocou meu disco, Estudando o Samba, junto com os outros pagodes”, afirma. Diante daquela obra tão rica e atual (mesmo sendo de 1976), Byrne se apressou em lançar Tom Zé na Europa e Estados Unidos, popularizando o artista brasileiro mundo afora.

Como bom povo provinciano, acostumado desde suas origens a macaquear o comportamento de seus colonizadores, foi necessária a aprovação de um estrangeiro para que se reconhecesse, após décadas, o valor do genial Tom Zé em sua própria terra. Ainda assim, em terra brasilis, o baiano de Irará tem entre o grande público nada mais do que o conhecimento de seu nome. Como tantos outros gênios da história, muito se fala a seu respeito, enquanto pouco se escuta da sua mensagem.

 

O disco

Embora existam diferentes versões para a história da capa de “Todos os olhos”, fazer uma alusão subliminar ao olho menos ortodoxo da anatomia humana, em uma capa de disco lançada nos anos de chumbo da ditadura, já é algo provocador o bastante para escandalizar até as gerações mais modernas. Musicalmente, Tom Zé funde neste disco todas as suas dissonâncias com o néctar do samba, com os refrões memorizáveis e sua poesia que dialoga com o íntimo do ouvinte, que chega a sentir proximidade do poeta.

Entretanto, antes que se corra o risco de pensar que sua obra pertence aos domínios da complexidade intelectualóide, Tom Zé avisa: “Todo compositor brasileiro é um complexado / Por que então essa mania danada / esta preocupação de falar tão sério, / de parecer tão sério, / de ser tão sério, / de sorrir tão sério, / de chorar tão sério, / de brincar tão sério, / de amar tão sério? / Ai, meu deus do céu vai ser sério assim no inferno”.

Uma vez que algo é simples, não significa que não seja sofisticado. Como bom antropófago, Tom Zé revive a melancolia da cantora Dolores Duran com “A noite do meu bem”, em uma versão onde os vazios entre as notas flertam com o vazio que existe dentro do próprio ouvinte. Na sequência, em uma parceria com um dos criadores da Poesia Concreta, Augusto de Campos, Tom Zé brinca com as palavras e os sentidos em “Cademar”.

Humano, demasiado humano, como a famosa obra de Nietzsche, é o pensamento que dá luz à quarta música do disco, a experimental “Todos os olhos”. É preciso acordar do impulso que nos transforma em deuses, que nos cria a necessidade de heroísmo, força absoluta e conhecimento sobre todas as coisas. Como Tom Zé, somos inocentes, somos até fracos e não sabemos de nada. Somos apenas humanos, demasiado humanos.

Assim como no disco anterior, “Se o caso é chorar” de 1972, Tom Zé é acompanhado no disco “Todos os Olhos” pela banda Capote, o psicodélico grupo do cantor Odair Cabeça de Poeta. Ao melhor estilo “Baiano e os Novos Caetanos”, trio humorístico formado nos anos 70 por Chico Anysio, Arnaud Rodrigues e Renato Piau, a canção “Dodó e Zezé” é uma conversa entre os matutos Tom Zé (Zezé) e Odair Cabeça de Poeta (Dodó).

Em “Quando eu era sem ninguém”, Tom Zé canta o clima de Irará, uma terra, segundo ele, pré-gutemberguiana, onde todas as tradições eram passadas oralmente. Embora a esta época já fosse um “velho baiano” no cenário musical brasileiro, a canção familiariza-se bastante com as canções de Pepeu, Moraes, Galvão, Baby e Paulinho, os Novos Baianos. Na sequência, em “Brigitte Bardot”, Tom Zé percebe que nem ícones como Brigitte Bardot, musa dos sonhos de toda uma geração, são poupados pelo tempo.

Embora a grande vencedora do Festival de Música Popular Brasileira de 1968, “São São Paulo, meu amor”, seja considerada o hino da cidade por compreendê-la com olhos paulistas (do baiano Tom Zé), nenhuma de suas canções soa mais paulistana do que o samba “Augusta, Angélica e Consolação”. “Augusta, graças a deus / entre você e a Angélica / eu encontrei a Consolação / que veio olhar por mim / e me deu a mão”, canta o poeta,  “adonirando” a cidade . “Quando eu vi, / que o Largo dos Aflitos / não era bastante largo / pra caber minha aflição, / eu fui morar na Estação da Luz / porque estava tudo escuro / dentro do meu coração”.

Considerada pelo próprio Tom Zé como a idéia mais fantástica que já teve, sua teoria sobre lixo lógico é o fio condutor de “Botaram tanta fumaça”. Em entrevista à Caros Amigos, ele explica: “A gente chegava na escola, o professor explicava aristotelicamente, a gente comparava com a educação da gente e quando chegava aqui dizia ‘É, dá certo, mas sobra aqui… Joga pra lá, porque a escola é que ta certa’. O ginásio joga uma porrada de coisa, o colégio joga uma porrada, a universidade joga tudo aqui. Aí um belo dia isso foi ficando tão pesado, feito um aleijado, que a pessoa tem mais coisa no hipotálamo que no córtex”.

Presente também no disco de 1970, “O Riso e a Faca” é coisa das mais bonitas, uma valsa intimista que escuta Tom Zé declamar sua poesia. E então, quando você pensa que está começando a entender, “Um Oh e um Ah” chega para lhe mostrar que o incompreensível é nada mais do que aquilo que não pode ser resumido, aprisionado e classificado. Logo após, há ainda uma segunda versão de “Complexo de Épico” fechando as cortinas e encerrando o disco.

Abaixo, como complemento essencial indico “Fabricando Tom Zé”, do diretor Decio Matos Junior, onde Tom Zé é acompanhado pela equipe do documentário em sua turnê do ano de 2005. Misturando causos do passado com o cotidiano do músico e poeta, o documentário acrescenta entrevistas com Gil e Caetano, entre outros, para situar o espectador.

Espero que gostem!

 

 

Download: Tom Zé – Todos os olhos (1973)

 

 


Jorge Ben – Sacundin Ben Samba (1964)

18/01/11

Em 1964 foi lançado um dos melhores discos do Antigo Testamento do Zé Pretinho. Arranjado pelo genial saxofonista J.T. Meirelles e seus fiéis Copa 5, Sacundin Ben Samba é o segundo álbum da carreira de Jorge Ben. Misturando vocais doces e hipnóticos com um samba-jazz de peso, Jorge Ben nos leva para um passeio lisérgico por suas raízes mais profundas.

A genial “Anjo Azul”, faixa de abertura, chega calmamente como um dia quente de verão que irrompe em uma tempestade comandada por Ben e Meirelles. De uma simplicidade angelical, como o próprio nome já diz, “Anjo Azul” trata o amor de forma sublime, algo que transparece na melodia.

Apelidada de “a filha de Mas, que nada”, “Nena Nanã” é a segunda pedrada deste disco. Misturando pioneiramente psicodelia ao samba, Jorge Ben apresentava ao mundo seu “samba esquema novo”. Na canção seguinte, “Vamos embora Uau”, o sentimental Jorge Ben canta sua tristeza com a maestria que ficaríamos acostumados a admirar. Sempre acreditei que o “berimbau” que Jorge se refere na música se trata de alguma gíria, para algo que lhe dá inspiração e alegria. Deixo em aberto para interpretações…

Antecipando os clássicos “Afro-sambas” e “Eis o ôme” de Vinícius de Moraes e Noriel Vilela respectivamente, Sacundin Ben Samba traz o clima das senzalas, dos terreiros e capoeiras, misturado a intensos clímaces de jazz. Essa é a atmosfera de “Capoeira”, quarta faixa do disco. “Mesmo sofrendo, mesmo chorando / Negro tem que levar a vida cantando”, diz a canção.

Muito antes de compôr o clássico “Charles, Anjo 45”, Jorge Ben já exaltava o malandro esperto nos versos de “Gimbo”. “Tira Gimbo de quem tem / e dá Gimbo a quem não tem”, cantava aquele que não aprendeu o idioma do subúrbio na universidade. Em “Carnaval Triste”, Ben, pandeirista de bloco de carnaval durante a infância, nos traz o clima da época de ouro do carnaval e os blocos de rua. “Rasguei a fantasia e chorei / Chorei, por não poder brincar”.

Na seqüência, uma das canções mais bonitas de Jorge Ben. Posteriormente regravada no “África Brasil”, de 1976, “A Princesa e o Plebeu” conta a história de um homem pobre apaixonado por uma princesa. Particularmente, acho a primeira versão muito melhor do que a segunda. Na mesma linha vem “Menina do Vestido Coral”, outro clássico entre as românticas do mestre. “Não me olhes assim / Pois meu juízo é perfeito / não quero ele ruim”…

Sobre a nona faixa do disco é difícil dar pistas. Só mesmo o neologismo “Candomblezz” pode descrever a musicalidade de “Pula Baú”, uma das minhas preferidas de toda a obra de Jorge Ben. Combinando o jazz com ritmos africanos, Ben canta sobre a triste situação da vida de um homem quando lhe convidam para um baile onde faltam mulheres.

Mergulhando de cabeça em suas raízes, Jorge Ben canta histórias do tempo de seus antepassados. “Jeitão de Preto Velho” é um lindo samba sobre um velho escravo que é padrinho de sua “sinhá”. Pode-se sentir a ternura em suas palavras. Na seqüência, “Espero por você” encanta pela beleza que Jorge Ben enxerga nos sentimentos. “Espero por você / Como espera a flor o orvalho da manhã/ O amor vem de você / Como vem o sol o dia clarear”.

A última música do disco nos faz voltar alguns séculos para o tempo em que a Lei do Ventre Livre foi assinada. Em “Não desanima João”, basta fecharmos os olhos para enxergarmos a história de um pequeno menino que será livre da escravidão. O desfecho perfeito para um disco que nos faz viajar por diferentes histórias, extensões da alma do poeta Babulina e seu violão.

Espero que gostem!

Download: Jorge Ben – Sacundin Ben Samba (1964)

 


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