Tim Maia – Racional Volume III Outtakes (1976)

31/01/11

 

Às vésperas do lançamento oficial do tão esperado Tim Maia Racional Volume III, o Samba Safari traz para você uma prévia do que vem por aí. Disponível na rede há alguns meses, a compilação traz cinco registros inéditos de Tim Maia e a banda Vitória Régia no auge da inspiração Racional.

Encontrados por acaso pelo produtor musical Dudu Marote, os tapes estavam na casa do engenheiro de som William Júnior, cujo pai foi dono do estúdio onde Tim gravou as canções. Em algumas faixas, é possível ouvir os diálogos entre Tim e a banda, uma verdadeira raridade que nos leva a uma viagem pela fase mais comentada do Síndico.

Batizado pelo produtor como “Escrituração Racional”, este groove iluminado aparece nas duas primeiras faixas da coletânea, gravado em dois takes diferentes. “É preciso ler e reler / a Escrituração Racional / e você vai ver, como é / que tudo vai mudar pra melhor”, canta Tim, imunizado racionalmente.

Quem já encontrou adeptos da seita Racional no centro de São Paulo, não vai estranhar a faixa “Preceitos da Energia Racional”. Em cima de uma interação ácida entre o ritmo da bateria, as linhas de baixo, os metais e os solos de guitarra, Tim lê alguns trechos do livro Universo em Desencanto, em uma verdadeira pregação.

Na seqüência, em “Solução Racional”, Tim Maia e a Vitória Régia trazem o melhor do Gospel de raízes negras em um “raciocínio acima de todos os raciocínios”. “Todos vão se encontrar / todos vão se imunizar / com o livro Universo em Desencanto”. É difícil escutar esta canção e não ter uma pontinha de esperança nesta doutrina salvadora.

Fechando o disco, “You gotta be Rational” é a uma das faixas mais pesadas entre os “três” volumes da série Racional. Exaltando sua distância dos tóxicos, Tim canta a plenos pulmões: “I don’t need no dope, I am rational / And when you read the book / Universe in Disenchantment / You won’t need no dope, you’re gonna be rational!”. Isto sim é o verdadeiro Funk!

Para obter o disco original, você deverá comprar todos os 14 volumes da Coleção Tim Maia, que será lançada em bancas de jornal e que trará todos os discos de Tim, remasterizados e acompanhados de um livro cada.  Enquanto isso, você encontra a prévia do disco no link abaixo.

Até o próximo post!

 

Download: Tim Maia –Racional Volume III Outtakes (1976)

 

 


Cassiano – Cuban Soul (1976)

31/01/11


Zico nunca ganhou uma Copa do Mundo. Chaplin nunca recebeu um Oscar como ator. Gandhi foi morto por um hindu. Cassiano, um dos maiores cantores que o Brasil já teve, vive hoje no esquecimento. Pai da Soul Music brasileira, ao lado de Tim Maia, Cassiano é dono de um jeito inconfundível de cantar, uma mistura de Lupicínio Rodrigues e Stevie Wonder que levou o estilo a um novo patamar.

Poucos sabem, mas além de cantor, Cassiano participou em 1970 do primeiro disco de Tim Maia tocando guitarra e fazendo backing vocals. Os eternos hits deste disco, “Primavera” e “Eu amo você”, são músicas de sua autoria, assim como os sucessos populares “A lua e eu”, regravada pelo grupo de pagode Pixote, e “Coleção”, também conhecida na voz de Ivete Sangalo. Para os mais atentos, “Onda”, também de Cassiano, é a canção que abre “Da Ponte pra Cá”, dos Racionais MCs.

No álbum “Cuban Soul”, de 1976, Cassiano mistura seus dois primeiros discos e encontra a fórmula mágica do Soul. Embora goste muito, muito mesmo, de “Imagem e som”, de 1971, e “Apresentamos nosso Cassiano”, de 1973, escolhi este disco para ilustrar a sonoridade deste gênio. Infelizmente, “Cuban Soul” seria o último disco de músicas inéditas do cantor.

Espero que gostem e passem adiante!

Download: Cassiano – Cuban Soul (1976)

 


Tim Maia – Tim Maia (1976)

18/01/11

O ano era 1976.  Após desencantar-se com a Cultura Racional,  energia motriz de Tim Maia Racional Volume 1 e Volume 2,  o mestre mergulhava de nariz novamente nos prazeres da vida. Neste disco,  Tim Maia e a Vitória Régia trazem a melhor mistura do Groove com o Samba Soul, especialidade da casa.

“Dance enquanto é tempo”, primeira faixa do disco, ilustra bem o clima que está por vir. “Vê se deixa essa tristeza, bicho/ Pega a dama e vem dançar/ Até eu que estava nessa, bicho/ Decidi vou me soltar”.  Seguindo a linha positivista, “É preciso amar” encanta como balada lisérgica, aquecendo os bons ouvidos e os bons pensamentos para as pedradas que estão a caminho.

Enquanto isso,  do outro lado do mar do Rio de Janeiro, alguns países do continente africano passavam por um período conturbado de segregação racial e violência.  Após dizer que em Guiné Bissau, Moçambique e Angola estava tudo numa boa, Tim canta seu apoio a seus irmãos de cor, pedindo luta e resistência (“Sei que és do som/Não és de matar/Mas não vás deixar pra lá”). “Rodésia” (antigo nome da nação hoje chamada de Zimbábue) traz Tim tocando flauta e uma sonoridade inspirada da banda Vitória Régia.

A quarta pérola do disco é um funk de primeira com resquícios dos ingredientes racionais. Márcio Leonardo e Telmo, que dão nome à faixa, são respectivamente Léo Maia e Carmelo Maia, filhos do Síndico. A tal SEROMA (iniciais de Sebastião Rodrigues Maia) onde seus filhos “vieram pra brincar” era o selo de Tim. Uma curiosidade sobre essa história é que apesar de Carmelo e Léo levarem o título Maia em seus nomes, Tim não era o pai biológico de nenhum dos dois, embora ambos tenham a mesma mãe.

Na seqüência, duas pedradas! “Sentimental” traz todo o peso emocional de Tim Maia, abrindo suas defesas em um groove com o selo Vitória Régia de qualidade. “Nobody Can Live Forever” pode ser considerada a sombra do hino “Imunização Racional”. Toda a sua frustração com a seita Racional e as crenças religiosas está expressa nestes versos que dizem que ninguém pode viver pra sempre, e que essa conversa de céu e inferno é uma grande besteira!

Em “Me enganei”, Tim canta a decepção de um amor que se acaba e o fim de sonhos e planos criados em cima de um outro alguém. A faixa seguinte é um aperitivo para o sensacional disco de 1978, o “What’s going on” (Marvin Gaye, 1971) de Tim Maia. “Manhã de sol florida, cheia de coisas maravilhosas” é uma das maiores declarações de amor à vida que eu já ouvi. Com um arranjo que atinge o fundo da alma, Tim consegue traduzir fielmente o clima de esperança e alegria que se sente quando se está apaixonado pelo lado bom da vida.

A nona faixa do disco é o funk “Brother, Father, Sister and Mother”, onde Tim pede para seus irmãos acordarem e pararem de perder seu tempo em igrejas e com crenças do tipo. A próxima música é simplesmente genial! “Batata-Frita, o Ladrão de Bicicletas” é um groove aparentemente non-sense que nos leva em uma viagem até os anos 70. Para maior entedimento da mensagem, vale ressaltar que a “bicicleta” citada na música é um tipo famoso de LSD.

Na última faixa deste disco, que é um dos meus três preferidos do mestre, “The Dance is Over” encerra o espetáculo. Como diz o refrão, a dança acabou e é hora de enfrentar a realidade. Um samba soul de respeito, com distorções de guitarra e tudo que se tem direito.

Quando se fala de Tim Maia, muitos cometem o erro de cair na dualidade da fase popular versus a fase racional. Acredito que os melhores discos do Tim estão no “pré” e no “pós” Tim Maia Racional. Este disco de 1976, por exemplo, é um que de tempos em tempos volta às minhas playlists. Espero que todos possam desfrutar de todo o poder que esse disco tem e que consigam adentrar o universo de um dos maiores gênios da música: o eterno Síndico!

Até o próximo post!

Download: Tim Maia – Tim Maia (1976)



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