Coluna Tem que escutar, escutando apresenta: Um safari pelo samba

04/07/11

samba safari

 

Quando paramos pra pensar no desenvolvimento do homem antigo pelas diferentes regiões do planeta, algumas similaridades nos permitem traçar um fio condutor e uniformizar o espírito humano, alcançando o significado do termo Essência. Expressão sincera, fluida e nestes casos, compartilhada por todo um grupo, a música é talvez o campo que mais demonstre estas semelhanças entre espíritos de épocas e regiões completamente diferentes.

Tal qual a descoberta da roda, que surgiu para preencher uma necessidade humana, a utilização de tambores (feitos com troncos de árvores e mais tarde peles de animais) é prática presente em diversos povos desde os tempos mais remotos. Estritamente relacionadas com as celebrações e rituais religiosos, as batucadas serviam também como meio de comunicação em muitos grupos, tanto para com receptores distantes, quanto como um meio de discurso dentro da própria comunidade.

Mais antiga ainda que o surgimento dos tambores é a percepção da voz como instrumento e do movimento corporal como conexão espiritual e musical, aquilo que chamamos de canto e de dança. Junte tudo isso e perceberemos a semelhança que há nos rituais de povos de contextos totalmente diferentes e sem nenhuma comunicação entre eles, desde tribos africanas a povos nativos sul-americanos (erroneamente chamados de indígenas).

Para quem não se interessa pela história, não é preciso ir tão longe. Uma breve pesquisa demonstrará às mentes abertas que quase todos os estilos musicais populares hoje em dia, derivam destas mesmas batucadas citadas anteriormente. Em especial, uma destas formas de se tocar ilustra muito bem este processo de ancestralidade musical. Parafraseando o poeta Jorge Ben, dou uma dica sobre sua identidade: “Filha de nobres africanos, que por um descuido geográfico, nasceu no Brasil num dia de Carnaval”.

Se você ainda não sabe de quem estou falando, deixarei que o próprio som manifeste-se através das palavras de Zé Kéti: “Eu sou o samba”! Sinônimo de festa, cultura, sentimento e arte, o samba nunca teve dificuldade nenhuma em ser a voz do povo: ele é desde sempre uma genuína forma de expressão da alma humana. Seja em suas raízes tribais africanas, seja nos versos tão sofridos de Nelson Cavaquinho, seja ainda no batuque vindo do Fundo de Quintal. O samba é sinônimo de Brasil!

A fim de abrir uma porta de entrada para que você, leitor e ouvinte, mergulhe de cabeça nas raízes deste som, assim como na própria alma destes sambistas (e por que não em sua própria alma?), o Samba Safari traz mais uma mixtape produzida pelo professor Luciano Alves, com mais de uma hora de viagem pelos diversos tipos e sabores de samba. Com as bênçãos de todos os santos e orixás, candombless!

 

Clique no player abaixo para escutar a mixtape Samba Safari – Um safari pelo samba (por Luciano Alves)

[audio http://www.fileden.com/files/2011/7/7/3164031//Mix Samba – Safari – julho 2011-.mp3]

Caso não consiga ouvir, escute por aqui!

 

Para baixar a mixtape e escutar em casa, clique aqui!

 

01 – Orquestra Afro Brasileira – Apresentação De Paulo Roberto
02 – Almirante & Pixinguinha c. Grupo da Velha Guarda – Pelo Telefone
03 – Zé Keti – A Voz Do Morro
03 – Adoniran Barbosa – Saudosa Maloca
04 – Elizeth Cardoso, Jacob do Bandolim & Conj. Época de Ouro – Barracão
05 – Clementina de Jesus – Na linha do mar
06 – Nei Lopes – Cara E Coroa
07 – Martinho da Vila – Batuque Na Cozinha
08 – Beth Carvalho – Coisinha Do Pai
09 – Adoniran Barbosa & Esterzinha de Souza – Letra de Samba
10 – Johnny Alf – Rapaz de Bem
11 – Sílvia Telles com Barney Kessel – Manhã de Carnaval
12 – Elis Regina – Upa neguinho
13 – Jacob do Bandolim & Zimbo Trio – Chega de Saudade
14 – Nara Leão – Tic-Tac do Meu Coração
15 – Luciano Perrone (Batucada Fantástica Vol. 3) – Samba Quente
16 – Martinho da Vila – Canta, Canta Minha Gente
17 – Beth Carvalho – Agoniza Mas Não Morre
18 – Cartola – Preciso me Encontrar
19 – Candeia – História de Pescador
20 – A Fantástica Bateria – Tratado de Ritmo 1
21 – Luiz Carlos Da Vila – Canta Candeia – De Qualquer Maneira
22 – Moacyr Luz E Aldir Blanc (Velha Guarda Mangueira) – Cachaça, Árvore E Bandeira
23 – Cartola – O mundo é um moinho
24 – Clara nunes – Marinheiro Só
25 – Martinho da Vila – Casa de Bamba
26 – A Fantastica Bateria – Tratado de Ritmo II
27 – João Nogueira – Boteco Do Arlindo
28 – Partido em 5 Samba Som 7 – Festa de Rato e Trambiqueiro
29 – Jorge Veiga – Na Cadência Do Samba
30 – Chico buarque – Fica
31 – Tom Zé – Tô
32 – João Bosco – O Bêbado E a Equilibrista
33 – Luciano Perrone (batucada fantástica vol 3) – Cuíca, Pandeiro, Agogô, Atabaques e Surdos
34 – A Fantástica Bateria – Tratado de Ritmo 2
35 – Bezerra da Silva – Pagode na casa do Gago
36 – Aparecida – Tereza Aragão
37 – Fundo de Quintal – O show tem que continuar
38 – Zeca Pagodinho – Spc
39 – Beth Carvalho – Lenço
40 – Fundo de Quintal – A Batucada Dos Nossos Tantãs
41 – Bezerra da Silva – Malandragem, Dá Um Tempo
42 – Grupo Raça – Dona da Minha Sina

 


Coluna O princípio é o verbo apresenta: Jair Bolsonaro, o grande psicanalista

09/04/11

Carl Jung, um dos maiores desbravadores da mente humana, dizia que um conflito só pode ser solucionado quando sua origem é retirada da sombra e trazida para a luz da consciência, a fim de ser analisada e resolvida. Em suas análises, Freud descobriu que na maioria das vezes, a causa de manifestações neuróticas de todos os tipos estava no inconsciente, e cabia à psicanálise trazê-la à tona. É possível encontrar este tipo de pensamento até em registros muito mais antigos, como nos textos bíblicos, que diziam que o perdão só seria possível após o entendimento e confissão de seus pecados a deus.

Embora a solução seja conhecida, existem muitas defesas que impedem a consciência humana de enxergar a verdade escondida. Negações, auto-engano, transferências, e todos os tipos de rota de fuga, servem, por um lado, para evitar a dor de um confrontamento com a realidade, mas acabam por afastar o indivíduo da solução de seus problemas. Dentre as defesas, a mais perigosa é a transferência, que consiste em enxergar a causa e o próprio problema nas outras pessoas, e recriminá-las por isso, trocando o sentimento de culpa pela condenação ao próximo.

Um caso muito comum deste tipo de transferência acontece quando, diante de um caso de corrupção política, um cidadão mostra-se indignado, mesmo sendo adepto de pequenas corrupções do dia a dia, como não devolver um troco que veio a mais, comprar a aprovação em uma prova para carteira de motorista, ultrapassar uma fila de carros pelo acostamento, entre outros diversos exemplos. É muito mais fácil acusar o próximo, escondendo-se em uma aura de perfeição, do que assumir os próprios atos, as próprias opiniões, analisá-las e tentar, talvez, reciclar uma ou outra em prol de uma evolução como indivíduo.

No Brasil, uma prática muito comum, entre todas as classes sociais, é a de disfarçar certas opiniões polêmicas, defendendo-se com acusações quando necessário. “Brasileiros têm olhos de lince para desvios de conduta ao redor, mas são cegos ao olhar para si. Todos se sentem superiores. Há a idéia de que brasileiro é o outro. Se fizer uma pesquisa, mais de 90% vão dizer que não têm preconceito racial. Se perguntar se há preconceito racial no país, mais de 90% dirão que sim. As duas coisas não podem ser verdade ao mesmo tempo”, questiona o filósofo Eduardo Giannetti, em entrevista à Revista Trip do mês de março.

Nestas últimas semanas, uma certa figura ganhou notoriedade ao emitir opiniões polêmicas em rede nacional. Trata-se do militar e deputado federal, Jair Bolsonaro, alguém conhecido por declarar abertamente ser favorável ao regime militar, à tortura, à pena de morte e ao fim das reservas indígenas. Com declarações emblemáticas sobre o homossexualismo, a ditadura, o uso de drogas e o relacionamento entre seu filho e “uma negra”, o qual definiu como promiscuidade, Bolsonaro figurou entre as manchetes de todos os veículos.

As declarações do deputado e a repercussão do fato serviram nas últimas semanas para despertar o debate sobre os temas citados em bares, faculdades e redes sociais. Enquanto grande parte da população mostrou-se indignada, houve gente que preferiu não se manifestar e houve, inclusive, muita gente que demonstrou compartilhar das opiniões de Bolsonaro. Apesar das diferentes reações ao fato, é sabido que a maioria da população concorda em algum ponto com o deputado.

É possível ouvir opiniões assim em todos os tipos de ciclos sociais, de pessoas com pouco ou muito acesso à informação. A discriminação ao pobre, ao negro, ao homossexual, ao deficiente físico, é uma constante assustadora entre os jovens e adultos brasileiros, sendo esta postura mais ou menos disfarçada, de acordo com o grau de convivência ao qual o indivíduo preconceituoso é obrigado a conviver com os indivíduos que discrimina. Inclusive, acredito que seja este grau de convivência um dos principais motivos para que essas opiniões mantenham-se veladas no Brasil, e dificilmente organizadas em movimentos ou passeatas conservadoras, como acontece frequentemente em alguns países europeus.

Discutem-se então medidas legais para criminalizar a discriminação. Fachada. A lei impede apenas que as opiniões discriminatórias sejam expressas, não combate um cenário que é estreitamente ligado com a discriminação. Enquanto isso, o negro, o pobre, o homossexual, o deficiente físico, são subjetivamente ou objetivamente discriminados pela cultura que já está cristalizada junto ao povo brasileiro. E o principal aliado desta discriminação velada é justamente o fato de não poder ser discutida e questionada, uma vez que não é assumida. Como diz a letra dos Racionais, “o primo do cunhado do meu genro é mestiço, racismo não existe, comigo não tem isso”.

Em meio a estas defesas que impedem que o problema seja discutido e resolvido, torna-se interessante a figura de um Jair Bolsonaro, alguém que revela o que grande parte do povo realmente pensa. Embora humanamente desprezível, é necessário que grande parte da população assuma sua postura preconceituosa e discriminatória, para que só assim seja possível mergulhar na sombra coletiva da sociedade e encontrar a solução para este problema. Para quem se identifica, é hora de tirar as máscaras e revelar seu lado. Saúdo, portanto, o grande psicanalista Jair Bolsonaro.

 

 


Tom Zé – Todos os olhos (1973)

23/03/11

 

Costuma-se chamar de gênio um indivíduo que consegue enxergar o mundo à sua volta por um prisma diferente dos demais, alguém que é capaz de entender certos mistérios da vida antes do que a maioria dos homens de seu tempo. Diz-se também, que esta vivência separada dos paradigmas de seu meio atenua a linha que separa a genialidade da loucura, duas faces humanas incompreendidas por nossa cultura. Se existe um homem na música brasileira que ilustra as afirmações anteriores, este atende pelo nome de Tom Zé.

Música não, rebeldia, como ele próprio afirma em entrevista à Caros Amigos de fevereiro deste ano. “Eu acho que eu não faço música. Música é só o pretexto, eu faço rebeldia. Rebeldia. Aquela proteína que entre os 13 e os 50 anos se a geração não tiver rebeldia, ela entra em falência. Primeiro, ela tem que compreender seu tempo e depois negar o seu tempo e cometer a rebeldia mesmo, dela, que ninguém controla”.

Incompreendido por uma geração que ainda não estava pronta para o abandono dos moldes tradicionais, Tom Zé é um pilar esquecido do Tropicalismo. Sua evolução não foi acompanhada pelo público e, embora tenha participado dos grandes festivais no começo de sua carreira, o lançamento do disco “Todos os Olhos”, de 1973, marca a ruptura do mercado com o artista. Algo curioso para uma época cultural tida como questionadora e revolucionária. Ouso imaginar que mesmo dentro do alternativismo tropicalista, era preciso ser esteticamente rentável.

Após anos de ostracismo em sua carreira, esquecido por seus antigos companheiros Caetano e Gil, Tom Zé estava “enterrado vivo”, como ele mesmo diz. Foi durante uma visita de David Byrne, dos Talking Heads, ao Brasil dos anos oitenta, que Tom Zé seria resgatado. “Graças a um arrumador de loja desastrado que colocou meu disco, Estudando o Samba, junto com os outros pagodes”, afirma. Diante daquela obra tão rica e atual (mesmo sendo de 1976), Byrne se apressou em lançar Tom Zé na Europa e Estados Unidos, popularizando o artista brasileiro mundo afora.

Como bom povo provinciano, acostumado desde suas origens a macaquear o comportamento de seus colonizadores, foi necessária a aprovação de um estrangeiro para que se reconhecesse, após décadas, o valor do genial Tom Zé em sua própria terra. Ainda assim, em terra brasilis, o baiano de Irará tem entre o grande público nada mais do que o conhecimento de seu nome. Como tantos outros gênios da história, muito se fala a seu respeito, enquanto pouco se escuta da sua mensagem.

 

O disco

Embora existam diferentes versões para a história da capa de “Todos os olhos”, fazer uma alusão subliminar ao olho menos ortodoxo da anatomia humana, em uma capa de disco lançada nos anos de chumbo da ditadura, já é algo provocador o bastante para escandalizar até as gerações mais modernas. Musicalmente, Tom Zé funde neste disco todas as suas dissonâncias com o néctar do samba, com os refrões memorizáveis e sua poesia que dialoga com o íntimo do ouvinte, que chega a sentir proximidade do poeta.

Entretanto, antes que se corra o risco de pensar que sua obra pertence aos domínios da complexidade intelectualóide, Tom Zé avisa: “Todo compositor brasileiro é um complexado / Por que então essa mania danada / esta preocupação de falar tão sério, / de parecer tão sério, / de ser tão sério, / de sorrir tão sério, / de chorar tão sério, / de brincar tão sério, / de amar tão sério? / Ai, meu deus do céu vai ser sério assim no inferno”.

Uma vez que algo é simples, não significa que não seja sofisticado. Como bom antropófago, Tom Zé revive a melancolia da cantora Dolores Duran com “A noite do meu bem”, em uma versão onde os vazios entre as notas flertam com o vazio que existe dentro do próprio ouvinte. Na sequência, em uma parceria com um dos criadores da Poesia Concreta, Augusto de Campos, Tom Zé brinca com as palavras e os sentidos em “Cademar”.

Humano, demasiado humano, como a famosa obra de Nietzsche, é o pensamento que dá luz à quarta música do disco, a experimental “Todos os olhos”. É preciso acordar do impulso que nos transforma em deuses, que nos cria a necessidade de heroísmo, força absoluta e conhecimento sobre todas as coisas. Como Tom Zé, somos inocentes, somos até fracos e não sabemos de nada. Somos apenas humanos, demasiado humanos.

Assim como no disco anterior, “Se o caso é chorar” de 1972, Tom Zé é acompanhado no disco “Todos os Olhos” pela banda Capote, o psicodélico grupo do cantor Odair Cabeça de Poeta. Ao melhor estilo “Baiano e os Novos Caetanos”, trio humorístico formado nos anos 70 por Chico Anysio, Arnaud Rodrigues e Renato Piau, a canção “Dodó e Zezé” é uma conversa entre os matutos Tom Zé (Zezé) e Odair Cabeça de Poeta (Dodó).

Em “Quando eu era sem ninguém”, Tom Zé canta o clima de Irará, uma terra, segundo ele, pré-gutemberguiana, onde todas as tradições eram passadas oralmente. Embora a esta época já fosse um “velho baiano” no cenário musical brasileiro, a canção familiariza-se bastante com as canções de Pepeu, Moraes, Galvão, Baby e Paulinho, os Novos Baianos. Na sequência, em “Brigitte Bardot”, Tom Zé percebe que nem ícones como Brigitte Bardot, musa dos sonhos de toda uma geração, são poupados pelo tempo.

Embora a grande vencedora do Festival de Música Popular Brasileira de 1968, “São São Paulo, meu amor”, seja considerada o hino da cidade por compreendê-la com olhos paulistas (do baiano Tom Zé), nenhuma de suas canções soa mais paulistana do que o samba “Augusta, Angélica e Consolação”. “Augusta, graças a deus / entre você e a Angélica / eu encontrei a Consolação / que veio olhar por mim / e me deu a mão”, canta o poeta,  “adonirando” a cidade . “Quando eu vi, / que o Largo dos Aflitos / não era bastante largo / pra caber minha aflição, / eu fui morar na Estação da Luz / porque estava tudo escuro / dentro do meu coração”.

Considerada pelo próprio Tom Zé como a idéia mais fantástica que já teve, sua teoria sobre lixo lógico é o fio condutor de “Botaram tanta fumaça”. Em entrevista à Caros Amigos, ele explica: “A gente chegava na escola, o professor explicava aristotelicamente, a gente comparava com a educação da gente e quando chegava aqui dizia ‘É, dá certo, mas sobra aqui… Joga pra lá, porque a escola é que ta certa’. O ginásio joga uma porrada de coisa, o colégio joga uma porrada, a universidade joga tudo aqui. Aí um belo dia isso foi ficando tão pesado, feito um aleijado, que a pessoa tem mais coisa no hipotálamo que no córtex”.

Presente também no disco de 1970, “O Riso e a Faca” é coisa das mais bonitas, uma valsa intimista que escuta Tom Zé declamar sua poesia. E então, quando você pensa que está começando a entender, “Um Oh e um Ah” chega para lhe mostrar que o incompreensível é nada mais do que aquilo que não pode ser resumido, aprisionado e classificado. Logo após, há ainda uma segunda versão de “Complexo de Épico” fechando as cortinas e encerrando o disco.

Abaixo, como complemento essencial indico “Fabricando Tom Zé”, do diretor Decio Matos Junior, onde Tom Zé é acompanhado pela equipe do documentário em sua turnê do ano de 2005. Misturando causos do passado com o cotidiano do músico e poeta, o documentário acrescenta entrevistas com Gil e Caetano, entre outros, para situar o espectador.

Espero que gostem!

 

 

Download: Tom Zé – Todos os olhos (1973)

 

 


Coluna Tem que escutar, escutando apresenta: Manifesto Samba Safari

16/03/11

Explicar qual é a proposta do Samba Safari é algo que envolve muito mais metafísica do que pode parecer. Nascido e crescido como um envolvimento musical que unia amigos, ouvintes dos mais variados estilos, o Samba Safari pode ser considerado um estado de espírito. Nestas duas palavras, aparentemente despretenciosas, se agrupam todos os sonhos e projetos culturais de uma geração de amigos que cresceu com a certeza de que a cultura é o maior fator de transformação na vida de um indivíduo.

Ao mesmo tempo em que é produto, expressão individual e coletiva, o Samba Safari é também receptor, acolhendo todas as idéias e manifestações culturais que participem desta mesma atmosfera, sendo um denominador comum pluralista. Da vida, queremos viver a arte, queremos discutir o mundo, queremos andar entre amigos. Samba Safari é cantar em coro o refrão deste grande samba que é viver.

Inauguro a coluna “Tem que escutar, escutando”, batizada deste modo em homenagem ao alquimista Jorge Ben, com uma playlist produzida pelo meu camarada Luciano Alves, que faz um safári pelo samba, pela música brasileira, e mistura todas as suas vertentes no mesmo plano. Como em qualquer escola que se preza, a aula a seguir levará 50 minutos para expor nossa visão do mundo.

Samba Safari!

 

 

Alguns sons:

Ivan Lins – Tanauê
Marcos Valle – Batucada
Milton Banana – Não faz assim
Dom Salvador Trio – Barumba
Skowa e a Máfia – Deus Me Faça Funk
Azimuth – Manhã
João Donato – Malandro
Bebeto – Veja a vida como ela é
Luciano Perrone – Afoxé
Chico Buarque – Fica
Candeia – Olha o samba sinhá
Milton Nascimento – Nada será como antes
Arthur Verocai – Na boca do sol
Tim Maia – Bom senso
Banda Black Rio –  Chega Mais (Imaginei Você Dançando)
Banda Erotica – Flash
Miguel de Deus – Black Soul Brothers


Caetano Veloso – Transa (1972)

02/03/11

 

No dia 27 de dezembro de 1968, os maiores expoentes da música brasileira, Caetano Veloso e Gilberto Gil, foram presos pelo regime militar sem qualquer alegação plausível. Obviamente suas participações em passeatas, movimentos estudantis e principalmente, suas condutas revolucionárias, não eram vistas com bons olhos pelo governo. Os dois passaram por celas de diversos quartéis no Rio de Janeiro, onde tiveram suas vidas marcadas para sempre pelo cárcere.

Durante este período, foram compostas em cela algumas canções que ficariam muito conhecidas, como “Irene”, onde Caetano canta a saudade da alegria e de sua irmã (Eu quero ir, minha gente / Eu não sou daqui / Eu não tenho nada / Quero ver Irene rir / Quero ver Irene dar sua risada), e Cérebro Eletrônico, uma das mais geniais canções de Gil.

Após dois meses de confinamento, numa quarta-feira de cinzas, os dois baianos foram conduzidos a Salvador, onde passariam outros quatro meses em regime de prisão domiciliar. Na metade do ano de 1969, o governo militar, com os poderes que o Ato Institucional número 5 lhe conferiam, decidiu expulsar Caetano e Gil do país. Fora permitido, embora, que realizassem um último show para arrecadar dinheiro para sua viagem forçada.

Nos dias 20 e 21 de julho, os dois principais tropicalistas faziam seu último show em terras brasileiras antes do exílio, em uma apresentação que virou disco, o sensacional Barra 69. Poucos dias depois, Gil e Caetano eram acompanhados por militares até um avião, onde embarcavam para Londres sob a seguinte advertência: “Só voltem se forem autorizados”.

O exílio foi para Caetano tão duro quanto deveria ser.  Desenraizado à força, o poeta mergulhou de cabeça em um estado tão depressivo como a própria aparência de Londres. Em um dos artigos que escrevia para o Pasquim, direto do exílio, Caetano afirmou sobre ele e Gil: “Estamos mortos”.  Afinal, que é o exílio senão a morte do homem como cidadão.

Apesar das tristezas, em uma das noites frias em Londres, Caetano receberia um visitante que trazia milhões de abraços em sua mala, todo o carinho do povo que aqui ficou, representado pela figura de seu rei, Roberto Carlos. Naquela noite, os últimos versos de “As Curvas da Estrada de Santos” seriam sucedidos pelo mais sincero pranto de Caetano. Segundo ele, foi este o momento que tocou o rei e o inspirou para a canção “Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos”.

Neste período, Caetano gravaria o melancólico disco de 1971, cuja capa trazia apenas seu rosto, fechado, e a profundidade de seu olhar, que traduzia fielmente seu estado de espírito. No mesmo ano, graças ao esforço de sua irmã Bethânia aqui no Brasil, Caetano conseguiria uma permissão especial do governo para retornar ao Brasil, apenas para assistir a missa em comemoração aos 40 anos de casamento de seus pais.

No dia da volta de Caetano, Bethânia, acompanhada do cineasta Gláuber Rocha e de Luiz Carlos Maciel, um dos fundadores do Pasquim, esperou por longas horas a chegada de seu irmão. Enquanto era aguardado em casa, Caetano

Caetano em programa de TV durante o breve regresso

passava por um interrogatório, após ser recebido no aeroporto pelos militares. Entre perguntas e mais perguntas, Caetano seria pressionado a escrever uma canção saudando a construção da Transamazônica.

De volta à Londres, Caetano convoca um time de peso para dar o passo que o consagraria como visionário cultural, revolucionário musical e semeador da libertação intelectual. Acompanhado dos amigos Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Souza, Caetano grava o disco Transa, sua obra de mergulhos mais profundos na alma do ouvinte e, principalmente, do compositor.


O disco

Doce como o ácido que fez Jards Macalé se apaixonar por uma Branca de Neve de cera, no museu Madame Tussaud’s, a canção “You Don’t Know Me” é um aviso verdadeiro para quem conhecia a obra de Caetano antes do disco Transa: você não me conhece. Misturando Edu Lobo e Luiz Gonzaga com desabafos em inglês e uma velha canção sua na voz de Gal Costa, o poeta faz o prefácio perfeito para o resto da obra.

Na sequência, “Nine out of ten” é anunciada por uma vinheta ao melhor estilo jamaicano. Caetano explica: “Eu e o Péricles Cavalcanti descobrimos o reggae em Portobelo Road e me encantou logo. Bob Marley e The Wailers foram a melhor coisa dos anos 70”. Foi a primeira vez em que o reggae aparecia na música brasileira. Em um samba de um pé na África e outro no sertão nordestino, “Nine out of ten” segue e faz o poeta dizer pra quem quiser ouvir: “I’m alive”.

Considerado o maior poeta barroco do Brasil, o baiano Gregório de Matos é dono dos primeiros versos de “Triste Bahia”, retirados de seu poema homônimo, do século XVII. A crescente evolução dos instrumentos e os cantos entoados nos trazem a atmosfera de uma roda de capoeira, diretamente da Bahia ou do outro lado do oceano.

Em certa manhã, o poeta acordou cantando uma velha canção dos Beatles, nada mais natural para quem vivia em Londres nos anos 70. Em “It’s a Long Way”, “The Long and Winding Road” dos Beatles, “Sodade, meu bem, Sodade” de Zé do Norte, “A Lenda do Abaeté” de Dorival Caymmi e “Berimbau”, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, tornam-se uma só canção, o canto mais sublime e transcedental do poeta Caetano Veloso.

A quinta música do disco é uma composição do sambista, cantor, ator e pintor carioca, Monsueto. Explorada em suas nuances mais profundas, “Mora na Filosofia” traz Caetano dando um passo à frente na melodia e estrutura musical do velho samba. “Se seu corpo ficasse marcado / Por lábios ou mãos carinhosas / Eu saberia, a quantos você pertencia / Não vou me preocupar em ver / seu caso não é de ver pra crer”.

A canção seguinte, “Neolithic Man” é tão existencial quanto experimental. Embora soe com extrema brasilidade, Caetano mistura diversos elementos musicais, ditando o clima de psicodelia. Encerrando o disco, “Nostalgia” é um blues com a participação de Angela Ro Ro, na gaita, e, como em diversas outras músicas do disco, Gal Costa.

“Transa” é sem dúvida um dos discos mais importantes da música brasileira, pela mistura revolucionária e iluminada de ritmos e elementos, e por seu contexto cultural e político. É o manifesto da capacidade de caetanear, ou seja, de driblar o óbvio e dar luz ao divino e maravilhoso. A seguir, segue um trecho do documentário “Canções do Exílio: a Labareda que Lambeu Tudo”, que traz depoimentos dos principais personagens desta resenha.

Espero que gostem!

 

 

Download: Caetano Veloso – Transa (1972)

 


Novos Baianos – Acabou Chorare (1972)

15/02/11

 

“Acabou Chorare”, de 1972, é muito mais do que um disco. Pode ser considerado um manifesto, uma viagem coletiva, uma Tábua de Esmeraldas, uma trilha sonora de algo muito maior. Pode ser considerado o hino oficial deste time baiano que vinha a campo com o camisa 10, Moraes Moreira, os pontas Baby e Paulinho Boca de Cantor, a zaga com Dadi, Jorginho, Baixinho, Bolacha e o centroavante Pepeu, todos sob a tática do professor Galvão.

Eleito pela revista Rolling Stone como o maior disco da história brasileira, “Acabou Chorare” é também o meu preferido dentre a obra destes baianos. É o ponto alto da mistura perfeita entre o violão de Dorival Cayimmi e a guitarra lisérgica de Jimi Hendrix. É como ser convidado a passar um fim de noite no “Cantinho do Vovô”, um pequeno sítio em Jacarepaguá que abrigava, de maneira anárquica e harmônica, toda a família Novos Baianos.

Conta a história que pouco tempo antes deste disco ser gravado, o grupo recebeu diversas visitas do cantor João Gilberto, que os influenciaria a acrescentar o samba à sonoridade dos Novos Baianos. Foi, inclusive, por sugestão de João Gilberto que o grupo gravou “Brasil Pandeiro”, samba de Assis Valente, na primeira faixa do disco. Com versos que exaltam, ao mesmo tempo, a cultura brasileira e a mistura desta com outras culturas, este samba ilustraria perfeitamente a universalidade do som dos Novos Baianos.

Assim como a primeira, a segunda faixa do disco tornou-se um dos maiores sucessos da carreira do grupo, sendo lembrada em qualquer roda de violão que este que vos escreve esteja. “Preta Pretinha”, uma das melodias mais doces da música brasileira, fala sobre uma moça que Galvão conheceu em Niterói. O trato era que pegassem a barca, Galvão fosse apresentado ao pai da moça, e na volta os dois morariam juntos na sede dos Novos Baianos, ainda um apartamento em Botafogo na época. Na última hora, a moça desistiu e voltou para seu antigo namorado. Seremos eternamente gratos por isso!

Na seqüência, “Tinindo Trincando” arrebata o ouvinte e nos convida para passear por um mundo lisérgico e natural, morada de Baby e Pepeu durante três minutos de pura psicodelia brasileira. Uma curiosidade sobre as distorções ácidas de Pepeu, é que ainda não haviam recursos para peças novas serem compradas para a sua Gianinni Supersonic. Parte dos agradecimentos devem ser destinados ao engenheiro e amigo de Pepeu, Paulo César Salomão, que atravessou noites estudando eletrônica até ter a brilhante idéia de equipar a guitarra de Pepeu com capacitores de uma televisão velha. O resultado pode ser ouvido nesta faixa.

Composta (em parceria com Galvão e Morais) e cantada por Paulinho Boca de Cantor, “Swing de Campo grande” é um samba com muito regionalismo e poesia, um misto da melancolia dos antigos com a alegria dos novos. Em entrevista à Rolling Stone, Paulinho atribuiu o refrão “Eu não marco touca / Eu viro toco / eu viro moita” aos conselhos de um rezador sobre como esquivar-se do mal (e da ditadura também). Segundo Paulinho, eles ficaram cinco anos sem pagar o IPVA do carro. “Passávamos pelos postos da Polícia Rodoviária e olhávamos para nossas próprias línguas. Ele nos ensinara que se olhássemos para nós mesmos ninguém nos veria”.

A quinta faixa, que dá nome também ao disco, não tem apenas em sua sonoridade bossanovística a influência de João Gilberto, o mentor espiritual do grupo. Hoje cantora internacionalmente conhecida, Bebel Gilberto era só uma criança quando, após cair sobre o chão batido do “Cantinho do Vovô”, disse a frase que encantaria a todos os presentes: “Não machucou papai, acabou chorare”. Ninguém melhor do que uma criança para frasear o espírito dos Novos Baianos. “Invadiu minha casa / me acordou na cama / Tomou o meu coração / e sentou na minha mão/ Abelha, abelhinha”.

Em seguida, o dedilhado de Morais prefacia uma das canções mais geniais já materializadas. “Mistério do Planeta” é como, o nome já diz, a natureza misteriosa em forma de versos e acordes. Considero ser esta a canção que melhor define os Novos Baianos: a doce melodia de Paulinho sobre o violão de Morais, anunciando o solo ácido de Pepeu. Um verdadeiro clássico!

A sétima música do disco é a poetização do espírito doce e independente de uma das maiores cantoras que o Brasil teve, Baby Consuelo. Ao mesmo tempo, “A Menina Dança” ilustra o que há de mais bonito em todas as mulheres, a alegria, ainda que rebelde, e o colorido do espírito feminino, gerador de vida por natureza. “Dentro da menina / a menina dança / até o sol raiar / até dentro de você nascer / nascer o que há”.

Segundo Morais, “Besta é Tu” é uma espécie de onomatopéia para o samba, repetido como um mantra em incontáveis rodas no “Cantinho do Vovô”. Definida como a canção “com maior teor lisérgico” do disco, “Besta é Tu” nos desperta para o agora, para o sol que está a brilhar, para o estádio no domingo. A espera por um além-mundo pode nos desviar do verdadeiro sentido da vida, que nada mais é do que viver. Então “por que não viver / não viver este mundo? / se não há outro mundo”.

Encerrando o disco, “Um bilhete para Didi” é uma mistura ácida de frevo, baião e chorinho, em uma interação brilhante entre Pepeu e Jorginho, sem precedentes na música. É o principal som do “rockarnaval”, um dos estilos atribuídos aos Novos Baianos. O disco ainda contém um segundo take de “Preta Pretinha”, uma versão mais “direto ao ponto” feita para tocar nas rádios.

A audição deste disco, assim como a leitura desta resenha, é essencialmente compatível com o documentário “Novos Baianos F.C.”, de Solano Ribeiro para uma emissora de televisão alemã. Em registros preciosíssimos, Solano eternizaria alguns dos momentos mais importantes da música brasileira neste documentário. Abaixo, segue a primeira parte do filme. A quem se interessar, os trechos restantes encontram-se aqui.

Até o próximo post!

 

 

Download: Novos Baianos – Acabou Chorare (1972)

 

 


Tim Maia – Racional Volume III Outtakes (1976)

31/01/11

 

Às vésperas do lançamento oficial do tão esperado Tim Maia Racional Volume III, o Samba Safari traz para você uma prévia do que vem por aí. Disponível na rede há alguns meses, a compilação traz cinco registros inéditos de Tim Maia e a banda Vitória Régia no auge da inspiração Racional.

Encontrados por acaso pelo produtor musical Dudu Marote, os tapes estavam na casa do engenheiro de som William Júnior, cujo pai foi dono do estúdio onde Tim gravou as canções. Em algumas faixas, é possível ouvir os diálogos entre Tim e a banda, uma verdadeira raridade que nos leva a uma viagem pela fase mais comentada do Síndico.

Batizado pelo produtor como “Escrituração Racional”, este groove iluminado aparece nas duas primeiras faixas da coletânea, gravado em dois takes diferentes. “É preciso ler e reler / a Escrituração Racional / e você vai ver, como é / que tudo vai mudar pra melhor”, canta Tim, imunizado racionalmente.

Quem já encontrou adeptos da seita Racional no centro de São Paulo, não vai estranhar a faixa “Preceitos da Energia Racional”. Em cima de uma interação ácida entre o ritmo da bateria, as linhas de baixo, os metais e os solos de guitarra, Tim lê alguns trechos do livro Universo em Desencanto, em uma verdadeira pregação.

Na seqüência, em “Solução Racional”, Tim Maia e a Vitória Régia trazem o melhor do Gospel de raízes negras em um “raciocínio acima de todos os raciocínios”. “Todos vão se encontrar / todos vão se imunizar / com o livro Universo em Desencanto”. É difícil escutar esta canção e não ter uma pontinha de esperança nesta doutrina salvadora.

Fechando o disco, “You gotta be Rational” é a uma das faixas mais pesadas entre os “três” volumes da série Racional. Exaltando sua distância dos tóxicos, Tim canta a plenos pulmões: “I don’t need no dope, I am rational / And when you read the book / Universe in Disenchantment / You won’t need no dope, you’re gonna be rational!”. Isto sim é o verdadeiro Funk!

Para obter o disco original, você deverá comprar todos os 14 volumes da Coleção Tim Maia, que será lançada em bancas de jornal e que trará todos os discos de Tim, remasterizados e acompanhados de um livro cada.  Enquanto isso, você encontra a prévia do disco no link abaixo.

Até o próximo post!

 

Download: Tim Maia –Racional Volume III Outtakes (1976)

 

 


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